Wednesday, December 22, 2010


Da Alemanha para o mundo

Já que nos tempos que correm o mundo está cada vez mais difícil de endireitar, Edgar Lange sabe exactamente o que quer: ele quer fazer o melhor possível em relação ao que mais imediatamente o rodeia. Os olhos iluminam-lhe o rosto e o sorriso abre-se, quando fala dos dois temas que lhe são mais caros, a família, em primeiro lugar - a companheira, Antje, e os dois filhos, Max e Eric, de 3 e 6 anos, e o projecto intitulado Mang'oto, na Tanzânia. É na Tanzânia que de momento se encontram todos, em Mang'oto, e é aí que vão passar o Natal. Regressarão à Alemanha e a Leipzig, onde ambos estudam, em Janeiro. Terão entretanto vivido mais dois meses em Mang'oto, onde Antje e Edgar fazem investigação para os estudos universitários, ela de Sociologia e Africanística, e ele de Português e Inglês. É já a terceira estadia de Edgar e Antje na Tanzânia; sozinho, é a sua sétima viagem a Mang'oto...
Edgar Lange foi editor e jornalista num jornal diário alemão, antes de começar a estudar na Universidade de Leipzig. Nesse período da sua vida, viajou muito, e visitou várias vezes o Brasil e Moçambique. E depois decidiu estudar. Escolheu Português, porque gostou das culturas de língua portuguesa que conheceu nesses países. Tem trabalhado enquanto estuda, e vê-se-lhe no rosto que é uma pessoa feliz: "Na minha família tenho o equilíbrio que gostaria que o mundo tivesse, igualdade de direitos e deveres no casal, justiça na distribuição de tarefas, deveres e direitos."
Edgar e Antje trabalham juntos, ela prepara o mestrado e ele a "Diplomarbeit". Ao mesmo tempo que fazem investigação, ajudam a população local, que conhecem bem de anteriores estadias. Digitalizam material local para as respectivas teses e os portáteis servem-lhes, na Tanzânia, de biblioteca ambulante, porque - e Edgar sublinha bem que sabe apreciar a sorte que têm - vão viver estes dois meses numa aldeia com electricidade, um autêntico luxo nas áreas rurais da Tanzânia. Nestas zonas utiliza-se predominantemente a energia hidroeléctrica, e não há electricidade no período seco.
A Tanzânia, informa ele, é um país independente desde 1961, a capital é Dodoma e o governo está sediado em Dar es Salaam. É na Tanzânia que fica a montanha de Kilimandjaro, com 5.895 metros. A língua oficial é o swaili, que ambos, Antje e Edgar, falam, mas os nativos de mais idade só falam inglês. Mang'oto, onde estão, fica a sudoeste de Dar es Salaam, bem no interior do país.
Contaremos muito em breve como é que Edgar Lange e a sua família foram ter da Alemanha a Mang'oto, no interior da Tanzânia.
(a continuar)

Sunday, December 19, 2010


Fotos da exposição do Instituto Camões "Fernão Mendes Pinto, 'Peregrinação' - Deslumbramentos do Olhar" na Universidade de Leipzig




Monday, December 13, 2010

LusoNautas - "Astronauta"

O grupo musical de alunos de Português do Instituto de Romanística da Universidade de Leipzig interpreta a canção "Astronauta", de Baden Powell e Vinicius de Moraes, por ocasião da inauguração da exposição "Fernão Mendes Pinto, Peregrinação - Deslumbramentos do Olhar", na Universidade de Leipzig a 26 de Novembro de 2010.
Somos, da esquerda para a direita: Sibylle Leiber (voz e percussão), Ana Maria Delgado, Judith Bettermann (voz e guitarra), Anne John, Hannah Rothmaier, Sara Rudolph, Sara Mendéz, Philipp Czápik (piano).




LusoNautas - Astronauta
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LusoNautas - "Canção do Mar"


O grupo musical de estudantes de Português do Instituto de Romanística da Universidade de Leipzig, LusoNautas, interpretam "Canção do Mar", de Frederico de Brito e Ferrer Trindade, por ocasião da inauguração da exposição do Instituto Camões "Fernão Mendes Pinto, Peregrinação - Deslumbramentos do Olhar", na Universidade de Leipzig, a 26 de Novembro de 2010
Somos, da esquerda para a direita: Sibylle Leiber (voz e percussão), Ana Maria Delgado, Judith Betterman (voz e guitarra), Anne John, Hannah Rothmaier, Sara Rudolph, Sara Mendéz, Philipp Czápik (piano)


LusoNautas - Canção do Mar
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Friday, December 3, 2010












Inauguração da exposição Fernão Mendes Pinto, Peregrinação - Deslumbramentos do Olhar em Leipzig



A exposição do Instituto Camões Fernão Mendes Pinto, Peregrinação - Deslumbramentos do Olhar foi inaugurada em Leipzig no passado dia 26 de Novembro, às 11.45 h, numa sala da Hochschule für Musik und Theater Felix Mendelssohn Bartholdy.
A exposição, que estará no átrio da Faculdade de Letras, GWZ (Geisteswissenschaftenzentrum), até ao dia 15 de Dezembro, foi concebida pela Profª Doutora Ana Paula Laborinho, Presidente do Instituto Camões, responsável pelo guião, textos introdutórios e selecção de passos inseridos da Peregrinação, e tem ilustrações de João Fazenda.
A inauguração contou com a presença do Senhor Conselheiro Cultural da Embaixada de Portugal em Berlim, Dr. Miguel Fialho de Brito, que falou aos presentes (cerca de 40 pessoas) sobre as viagens dos portugueses ao Oriente. A Doutora Christine Hundt e a Doutora Cornelia Döll saudaram os convidados e apresentaram o Programa de Português dentro do Instituto de Romanística da Universidade de Leipzig. A leitora do Instituto Camões, Doutora Ana Maria Delgado, deu as boas-vindas a todos, falando sobre a ligação da Senhora Presidente do IC ao Oriente e da estreia, neste evento, do grupo musical de estudantes de Português do Instituto de Romanística, os LusoNautas, que interpretaram primeiro uma canção portuguesa, Canção do Mar, de Frederico de Brito e Ferrer Trindade, e depois um tema brasileiro de Baden Powell e Vinicius de Moraes, O Astronauta.
A sessão contou ainda com a brilhante participação do compositor português Manuel Durão, que estuda Composição em Leipzig, e que interpretou ao piano uma peça da época da Peregrinação, com variações suas.
Presente esteve também a Profª Doutora Cornelia Sieber, especialista deste período da história e cultura portuguesa e lusófona.
A exposição seguirá em itinerância para outras cidades e universidades alemãs.
(Contamos poder, em breve, apresentar neste blogue um vídeo da actuação dos LusoNautas nesta inauguração)

Monday, November 29, 2010

O primeiro retrato oficial do Papa Bento XVI exposto em Leipzig


O contraste não podia ser maior: o representante máximo da Igreja católica e o seu retratista, o pintor Michael Triegel, 42 anos, de óculos e barba e parecendo ainda muito jovem, fotografado em pose informal junto ao retrato oficial de Bento XVI.
No entanto, foi este pintor alemão natural de Erfurt e representante da Nova Escola de Leipzig, o escolhido por Hermann Reidel, Director do Museu da Diocese de Regensburg, para pintar o primeiro retrato oficial do Papa Bento XVI. Para Reidel, Michael Triegel é o pintor que melhor poderia realizar esta obra, dado o seu estilo figurativo, muito na tradição dos antigos mestres, usando motivos da mitologia e história sagrada cristãs. O próprio pintor se define como não-religioso em sentido restrito, mas fala ao mesmo tempo dos seus quadros como "quadros de uma nostalgia" ("Bilder einer Sehnsucht"). Gostaria de possuir uma crença que mostrasse a procura de sentido. Se definirmos religiosidade como a luta contra a falta de sentido e o sofrimento, então não podemos separar a questão religiosa dos grandes problemas da humanidade, afirma Michael Triegel em entrevista.
Bento XVI chamou ao pintor, um pouco a brincar, "o meu Rafael", e Triegel naturalmente estudou com pormenor retratos de papas anteriores a Bento XVI. Trabalhou durante dois meses e meio no retrato do Papa, sem este ter posado para o quadro. Mas Michael Triegel pôde observar, fotografar e sobretudo desenhar Bento XVI durante uma audiência de duas horas, e assim vê-lo em movimento, estudar a sua expressão e aura pessoal.
Agora, o quadro está, juntamente com mais dois dos esboços que Triegel pintou, na exposição "Verwandlung der Götter" ("Transformação dos Deuses"), que foi inaugurada no passado sábado, dia 27 de Novembro, no Museu de Belas-Artes de Leipzig. A exposição estará aberta até ao dia 6 de Fevereiro de 2011 e mostra 70 quadros de Michael Triegel, de 1993 a 2010. O retrato agradou ao Papa e será exposto a 19 de Abril, sexto aniversário do seu Pontificado, na Catedral de Regensburg, após o que ficará na entrada do "Instituto Papa Bento XVI".
O retrato mostra um intelectual que o Papa também é, e ao mesmo tempo um homem de 83 anos. O olhar interroga o espectador, o papel que tem na mão indica que é um intelectual, um homem do espírito, que vive da palavra e da escrita. O padrão de granada da cadeira sinaliza os seguidores de Cristo: a granada é o fruto do Paraíso, e os grãos representam as gotas de sangue de Cristo. O braço da cadeira representa a chave do reino dos céus que Jesus prometeu a Pedro, no qual o Papa se apoia.
É assim que o pintor explica o seu quadro, mostrando ao mesmo tempo quão profundamente conhece a tradição pictórica a que dá continuidade com este primeiro retrato oficial do Papa Bento XVI, exposto agora pela primeira vez na cidade de Leipzig.
Fontes:
"Papst-Porträt steht in Leipzig", RP ONLINE , 26.11.2010
Wolf-D. Kröning, "Papst-Maler Triegel erklärt uns sein Benedikt-Bild", Bild.de, 27.11.2010
Susanne Altman, "Michael Triegel", art-magazin.de, 22.04.2010

Thursday, November 4, 2010




Chaplin dança na Ópera de Leipzig





A Ópera de Leipzig estreou no passado dia 30 de Outubro de 2010 o espectáculo de bailado Chaplin, de Mario Schröder, com música de Charlie Chaplin, Benjamin Britten, Samuel Barber e Richard Wagner. Nesta nova versão do seu trabalho, o director do Ballett de Leipzig interroga-se sobre quem foi o homem por detrás do clown que conhecemos do cinema mudo, o vagabundo de bigode, chapéu de coco e bengalinha, que aos poucos foi tomando posição política e mostrando a sua visão do mundo do trabalho, das fábricas, greves e manifestações, do clown que desafiou o ditador e o fez parecer minúsculo. O empenhamento político de Chaplin levou a América conservadora a expulsá-lo do país na era McCarthy.
O bailado Chaplin mostra as várias estações da vida do actor e realizador, referindo sempre a sua actividade criativa e mostrando o artista que observa a realidade do seu tempo com olhos bem abertos e com grande sensibilidade. A compaixão de Chaplin pelos mais desfavorecidos e o seu sentido de justiça fazem dele um modelo de humanismo, a par com D. Quixote e Jesus de Nazaré.
A estreia contou com a presença da filha de Chaplin, a actriz Geraldine Chaplin, muito comovida com a homenagem assim prestada ao pai.
Chaplin, bailado de Mario Schröder
Dramaturgia de Thilo Reinhardt
Orquestra do Gewandhaus de Leipzig, dirigida por William Lacey
Guarda-roupa e cenários de Paul Zoller
Fonte, imagem e vídeo: página da Internet da Ópera de Leipzig





Wednesday, October 13, 2010

Thursday, September 16, 2010

Sunday, August 15, 2010


O filme Contraluz de Fernando Fragata e o "princípio da sincronicidade" de C. G. Jung










Estreou a 22 de Julho o filme de Fernando Fragata Contraluz, o primeiro filme português filmado em Hollywood. O sucesso que tem tido deve-se, dizem alguns espectadores, a um ritmo que identificam como americano. O próprio realizador afirmou, em entrevista à RFM no dia da estreia em Portugal, que se trata de um filme próximo da ficção científica e da série de televisão Twilight Zone, que narrava episódios sobre a condição humana quando confrontada com acontecimentos invulgares. As personagens de Contraluz estão em situações existenciais graves, mas algo de inesperado lhes acontece que muda as vidas delas. Fernando Fragata acentua, porém, que é também a força dessas personagens e a vontade delas de mudar as suas vidas que acabam por ser determinantes. No que se segue proporei uma leitura de Contraluz a partir do "princípio da sincronicidade" de C. G. Jung, de que o filme parece ser uma brilhante demonstração.


O título Contraluz, Backlight em inglês, é desde logo explicitado no trailer do filme: "Nem sempre a luz (leia-se a razão) revela o melhor caminho" e "Todos caminhamos em direcção à luz (leia-se uma outra dimensão numa vida após a morte). Até lá, vive em contraluz". Quando vi o filme, pensei primeiro que o título se referia à longa sequência inicial, no decurso da qual a personagem interpretada por Joaquim de Almeida fica encadeada pela muita luz do dia ao sair de casa durante longa crise existencial. Mas um título pode apontar para vários níveis de significado. "Contraluz" é claramente uma proposta de compreensão da vida humana através de uma razão outra. Penso ter encontrado uma semelhança muito grande da proposta do filme de Fernando Fragata com o "princípio de sincronicidade" tal como proposto por Jung pela primeira vez em 1929 (levaria ainda 21 anos a concluir a obra Sincronicidade, um princípio de relações não-causais). Diferentemente do princípio da causalidade, que liga eventos através de uma relação necessária de causa e efeito, o princípio da sincronicidade liga eventos através da simultaneidade ou coincidência e do significado. Este princípio serviria para explicar fenómenos raros e aleatórios, como eventos ligados não pela sequencialidade / causalidade, mas pela coincidência. Jung chama a estes eventos "sincronicidade" ou "coincidências significativas", como por exemplo a ocorrência de dois eventos que coincidem de modo significativo para quem os viveu, sugerindo um padrão subjacente. Jung define este padrão através dos conceitos de "arquétipo" e de "inconsciente colectivo". Quer um quer outro dos conceitos está ligado às camadas profundas da psique humana e a imagens ou materiais primordiais que formatam e servem de matriz ao desenvolvimento psicológico. Sincronicidade não é o mesmo que coincidência tout court, pois não depende apenas de circunstâncias aleatórias, mas antes desse padrão subjacente e dinâmico que se manifesta através de eventos significativos.
Contraluz propõe igualmente uma razão outra para compreender também com insight, com intuição, os nossos destinos humanos, por vezes tão difíceis de apreender usando apenas a razão fria. A sincronicidade é um conceito com o qual se tenta explicar aquilo que escapa à explicação causal. Jung propõe que se substitua a tríade tempo / causalidade / espaço, pela tríade alternativa tempo / causalidade ou sincronicidade / espaço. O filme de Fernando Fragata encena destinos de várias personagens, ligados uns aos outros antes mesmo de se encontrarem. O ritmo de narração do filme provém desta circunstância e não de qualquer utilização de cenas típicas dos filmes de acção americanos, cheias de barulho e confusão. Aqui assistimos mesmo ao curioso facto de serem as cenas de mais elevado teor dramático as cenas mais lentas do filme, filmadas ao ralenti, como se fosse necessário tempo para compreender e apreender a mais dramática das situações humanas - o que se perde em velocidade cega ganha-se em intensidade dramática e em capacidade de acompanhar o movimento de uma cena. Neste sentido, o cinema de Fernando Fragata cria o seu próprio ritmo, certamente em contraluz em relação a um certo cinema americano, com o qual não deve ser confundido.
A identidade lusa do filme é assegurada pela assinatura no interior do filme através das canções portuguesas que a dona do motel no deserto ouve, nomeadamente Agulha e Dedal. Apesar das belíssimas paisagens dos desertos serem bem americanas (até porque a universalidade é uma das características que nos definem como portugueses no nosso melhor). A beleza deslumbrante das paisagens serve para nos fazer ver a amplitude dos destinos humanos, sempre que temos força para os aceitar e desenvolver. Estas personagens lutam pelas suas vidas, mesmo se por vezes não percebem com a razão fria qual o caminho a seguir. O filme está todo ele construído a partir do destino / itinerário (destination) de uma das personagens, e suspende a narração quando entra em cena uma nova personagem, para seguir o caminho que a levou até aquele encontro, e por aí adiante até ao desenlace final em que todos os destinos / percursos se encontram.
Curiosamente, sem se referir a Jung ou ao princípio de sincronicidade, o realizador Fernando Fragata fala, na entrevista à RFM, a propósito do elemento de suspense do seu filme, de uma coincidência que lhe aconteceu durante os dois anos em que trabalhou no filme. Vivendo entre Lisboa e Los Angeles, encontra em LA casualmente um português, de S. Pedro do Estoril como ele, mas que não conhecia. Trata-se do compositor Nuno Maló, que viria a compor a música para Contraluz. Outra "coincidência significativa" ou sincronicidade?
Interessante será ainda observar que as personagens recebem mensagens através de meios tecnológicos: o GPS da sequência inicial, que orienta a personagem para o seu destino (destination), o que é tanto mais estranho porque o aparelho está avariado; um telemóvel achado por acaso na rua, e que propicia mensagens de sobrevivência para cada dia; e uma máquina fotográfica que parece garantir o regresso ao presente e à vida. Esta ideia de a tecnologia poder ser um canal de transmissão de mensagens vindas de uma outra dimensão é muito comum na literatura sobre experiências paranormais.
Resta falar dos excelentes diálogos - este é um filme em que as relações humanas são muito importantes - e com um apurado sentido de humor. "Há sempre uma esperança, mesmo no limite do desespero", é a mensagem do filme, segundo o realizador. Faz-me lembrar uma frase muito parecida, que foi um dos slogans do movimento de Maio de 1968 em França, uma citação de Walter Benjamin: "Só os desesperados nos podem trazer a esperança". Mais uma razão para ver este excelente Contraluz e dar os parabéns ao seu realizador, acompanhados por votos de mais trabalho desta qualidade.
Uma nota final de agradecimento à minha querida amiga Isabel Sampaio, que me chamou a atenção para o princípio de sincronicidade de C. G. Jung a propósito deste filme.

CONTRALUZ - EM EXIBIÇÃO NOS CINEMAS (Trailer 2) www.FilmeContraluz.com

Trailer Contraluz (Backlight) Legendado HQ

Tela - Santos & Pecadores (tema do filme CONTRALUZ - EM EXIBIÇÃO nos cin...

Wednesday, August 4, 2010






Chemnitz III - Uma floresta petrificada sob a cidade





Uma cidade esconde sempre alguma coisa, ou porque não tivemos tempo suficiente para ver tudo, ou porque a habitámos demasiado tempo e tudo se tornou hábito. No caso da cidade saxónia de Chemnitz, sobre a qual tenho vindo a escrever, há todo um tesoiro escondido e por explorar, com 290 milhões de anos, literalmente soterrado sob a cidade. Trata-se de uma floresta petrificada, que deve a sua formação a uma erupção vulcânica de grandes dimensões. A lava e cinza espalhou-se por uma área de dez quilómetros e, tendo absorvido muita da humidade da atmosfera, caiu sobre uma floresta virgem tropical que está agora, conservada pela petrificação, sob a cidade de Chemnitz. Tal como explica o especialista em fósseis Jörg Schneider, toda essa área da floresta ficou transformada em pedra no intervalo de poucas horas.

O jornal da região Sächsische Zeitung noticia, a 30 de Setembro de 2009, a descoberta de um animal dessa época durante as escavações, anterior mesmo aos dinossauros, com o aspecto de uma serpente com pernas. Na opinião dos especialistas, muitos outros animais poderão ser trazidos à luz pelo trabalho de escavação: répteis, insectos, aranhas, escorpiões, e até libelinhas com asas de vinte centímetros, entre outros. Nesta época longínqua, a Europa estava ainda ligada à América do Norte - juntas formavam uma placa de pedra que se localizava perto do Equador, com temperaturas de trinta graus centígrados na época das chuvas e de quarenta na época seca. No lugar onde hoje se encontra Chemnitz crescia então uma luxuriante floresta tropical de árvores coníferas, fetos e cipós.

Uma pequena parte desta a que alguns chamam já a oitava maravilha do mundo pode ver-se no Museu de História Natural de Chemnitz. O conjunto que constitui a floresta petrificada de Chemnitz poderia muito bem vir a ser considerado o maior e mais importante fóssil da Europa e ser classificado pela UNESCO como património mundial. Chemnitz ganharia assim uma nova e bem diferente imagem de marca no séc. XXI, e poderia vir a transformar-se num dos locais mais visitados da Europa.

A floresta petrificada mais conhecida do mundo fica no Arizona, nos Estados Unidos da América, e faz parte do planalto do Colorado e do deserto conhecido como "Painted Desert". O filme The Petrified Forest, de 1936, com argumento de Delmer Daves, tem este cenário como pano de fundo, e era (provavelmente pelo belo diálogo das personagens principais sobre livros) um dos filmes preferidos de Jorge Luis Borges.

Vd. Stephan Schön, "Eine Vulkanexplosion verschüttete den Chemnitzer Ursaurier und rettete ihn so bis heute", in: Sächsische Zeitung, 30 de Setembro de 2009



Tuesday, August 3, 2010


k. d. lang, "In Perfect Dreams" (do filme Even Cowgirls Get the Blues)


Ver aqui


Wednesday, July 14, 2010














Chemnitz II -
Seguindo a rota de Henry van de Velde


Chegados a Chemnitz, um breve passeio pela cidade, e logo o nosso itinerário se desvia um pouco do centro para mostrar uma jóia do "Jugenstil", seguindo a rota europeia de Henry van de Velde: a Villa Esche. É com enorme surpresa (não me tinha informado muito sobre a cidade e a sua história, pois sabia ter um excelente guia) que descubro, no meio de um bem cuidado parque e jardim, uma vivenda Arte Nova de linhas muito depuradas. Parecia acabada de construir, novinha em folha, mas devia ter uns cem anos... já vou contar a história, tal como a ouvi na visita guiada e pude voltar a recapitular num DVD que encontrei na loja da Villa Esche.

A história da Villa Esche começa em 1898, quando Johanna Esche lê um número da revista de Munique, Artes Decorativas, dedicado ao arquitecto belga Henry Clément van de Velde, e decide com o marido, o empresário industrial Herbert Eugen Esche, director da fábrica de meias "Moritz Sml. Esche", encomendar o mobiliário para a residência da família no bairro de Kaßberg em Chemnitz. Este bairro é hoje em dia considerado um dos conjuntos arquitectónicos mais bem conservados da Arte Nova europeia. Muito em breve decidem que gostariam de viver num ambiente mais harmonioso, no qual a mobília estivesse integrada na arquitectura interior e exterior, e em 1902 pedem a Henry van de Velde que projecte não só uma casa, mas um espaço de vida como obra de arte total.

Foi o primeiro projecto de van de Velde na Alemanha, e documenta a sua interpretação racional do "Jugendstil" (Arte Nova). Van de Velde renuncia à ornamentação floral exuberante do anterior "Jugendstil" e opta por linhas direitas e funcionais. É um dos seus primeiros "esboços para a vida", ligando a funcionalidade com uma grande exigência artística, e criando um novo estilo que se quer simultaneamente um estilo de arte e de vida. Note-se que a rota de van de Velde o conduzira da França, passando pela Bélgica e Holanda, até à Alemanha e Polónia, sendo Weimar, na Turíngia, e Chemnitz, na Saxónia, pontos importantes deste itinerário. Van de Velde deixará a sua inscrição em Chemnitz em mais três projectos: uma outra vivenda para o irmão de Anni Esche, o Dr. Theodor Körner, a remodelação da vivenda dos pais de Anni, e uma encomenda do irmão de Herbert Esche para um clube de ténis (que infelizmente já não existe).

Henry van de Velde projecta, como artista multifacetado que era, não só a arquitectura exterior e interior da residência e os jardins, mas todos os pormenores da casa, desde portas, janelas, batentes, sanefas, papel de parede, tapetes, clarabóia, móveis-cobertura para radiadores, mobília, porcelana, pratas, talheres, vestuário para a Senhora Escher, e utensílios vários.

Em 1904, a família muda-se para a Villa e, no ano seguinte, Edvard Munch é convidado do casal e pinta, durante essa estadia, os retratos dos dois filhos de Anni e Herbert Esche. Em 1911 fazem-se obras na residência com orientação de van de Velde. Neste mesmo ano Anni morre e Herbert Esche fica na Villa até finais da 2ª Grande Guerra e deixa Chemnitz no Outono de 1945. A Villa Esche é utilizada para vários fins e sofre modificações até ficar vazia em 1990 e em estado de degradação avançada. É então adquirida por uma sociedade de administração imobiliária, que empreende a sua total recuperação como monumento arquitectónico de grande qualidade à escala europeia. Com base no que restava da residência e em fotos, modelos e esboços de vários arquivos europeus, pensou-se não só na recuperação deste monumento em adiantada fase de degradação, mas também na climatização, saídas de emergência, nas directrizes de raiz para espaços culturais, e em pormenores importantes como a reconstrução da clarabóia e do soalho e a pintura das paredes exteriores segundo um método especial que produz um efeito de "arranhão".

A Villa Esche é solenemente inaugurada em 2001, com um concerto de Ano Novo, e passa a funcionar como plataforma cultural e ponto de encontro privilegiado da economia, ciência, cultura e arte na região da Saxónia. É um espaço elegante e calmo, onde se sente ainda a presença inspiradora do espírito do seu arquitecto, o belga Henry van de Velde. Alberga e é palco de conferências, workshops, seminários, residência de artistas, eventos culturais, concertos, exposições, possuindo ainda um restaurante e serviço de casamentos e eventos especiais. Em 2003 festejou-se o centenário da Villa Esche, que permanecerá como testemunho vivo da amizade entre o empresário saxónio Herbert Esche e o arquitecto belga Henry van de Velde, um dos protagonistas da história da arte europeia na viragem do séc. XIX para o séc. XX.

Vamos ainda ver o impressionante conjunto arquitectónico que é o bairro de Kaßberg, em "Jugendstil", e regresso a casa depois deste inesperado encontro com Henry van de Velde na cidade saxónia de Chemnitz, sentindo que a página da memória está, no que toca ao dia de hoje, completamente preenchida.
Henry van de Veldes Villa Esche in Chemnitz, Video DVD 34m, VideoVision 2007

Paris des Autres

Friday, June 11, 2010





Prazeres




O primeiro olhar da janela de manhã
o velho livro de novo encontrado
rostos animados
neve, o mudar das estações
o jornal
o cão
a dialéctica
tomar duche, nadar
música antiga
sapatos cómodos
compreender
música nova
escrever, plantar
viajar, cantar
ser amável



Bertolt Brecht, Prazeres, Vergnügungen (1954)


Tradução de Paulo Quintela
Imagem e créditos: Henri Matisse, Open window. Collioure (1905), National Gallery of Art, Washington, D.C.
allposters.de




In-Between







E tinha eu tantos planos
para escrever coisas bem
definidas e concretas

A poesia foi
o que me aconteceu
no intervalo

A cronista de serviço
pede desculpa pela interrupção
e volta dentro de momentos


(9.5.2010)



Imagem e créditos: Ló, Quiosque do Tivoli (Centro Português de Serigrafia, 2003)

Wednesday, June 9, 2010

Serge Reggiani chante Boris Vian Je voudrais pas crever...

Felix Mendelssohn Bartholdy - Die Hebriden / Hebrides Overture ("Fingal'...






O sentido de Ítaca, relendo sempre Constantino Cavafis



Ítaca


Quando partires de regresso a Ítaca,
deves orar por uma viagem longa,
plena de aventuras e de experiências.
Ciclopes, Lestrogónios, e mais monstros,
um Poseidon irado - não os temas,
jamais encontrarás tais coisas no caminho,
se o teu pensar for puro, e se um sentir sublime
teu corpo toca e o espírito te habita.
Ciclopes, Lestrogónios, e outros monstros,
Poseidon em fúria - nunca encontrarás,
se não é na tua alma que os transportes,
ou ela os não erguer perante ti.

Deves orar por uma viagem longa.
Que sejam muitas as manhãs de Verão,
quando, com que prazer, com que deleite,
entrares em portos jamais antes vistos!
Em colónias fenícias deverás deter-te
para comprar mercadorias raras:
coral e madrepérola, âmbar e marfim,
e perfumes subtis de toda a espécie:
compra desses perfumes o quanto possas.
E vai ver as cidades do Egipto,
para aprenderes com os que sabem muito.


Terás sempre Ítaca no teu espírito,
que lá chegar é teu destino último.
Mas não te apresses nunca na viagem.
É melhor que ela dure muitos anos,
que sejas velho já ao ancorar na ilha,
rico do que foi teu pelo caminho,
e sem esperar que Ítaca te dê riquezas.


Ítaca deu-te essa viagem esplêndida.
Sem Ítaca, não terias partido.
Mas Ítaca não tem mais nada para dar-te.


Por pobre que a descubras, Ítaca não te traiu.
Sábio como és agora, senhor de tanta experiência,
terás compreendido o sentido de Ítaca.




Tradução de Jorge de Sena
Imagem: Paul Klee, High Spirits
(allposters.de)

Sunday, June 6, 2010






O café segundo J. S. Bach (I)




Sabe-se quão profundamente a cidade alemã de Leipzig está ligada à música: aqui nasceram Clara Schumann e Richard Wagner, aqui viveram Felix Mendelssohn Bartholdy e Johann Sebastian Bach. Esta matriz musical é visível na própria fisionomia da cidade. A praça principal, o Augustusplatz, é contida nos seus amplos limites - é uma das maiores praças da Alemanha - por duas referências musicais da cidade, a ópera e a sala de concertos, o Gewandhaus de Leipzig.

À casa de Clara e Robert Schumann na Inselstrasse 18, onde o casal viveu durante os primeiros anos de casamento, e à casa-museu de Mendelssohn na Goldschmidstrasse 12 (antiga Königstrasse), onde Mendelssohn viveu e morreu, junta-se desde Março de 2010 o Museu Bach, em frente da Thomaskirche. Nesta belíssima igreja gótica foi Bach Thomaskantor, director do coro da igreja, e responsável pela música das quatro principais igrejas da cidade, e pela composição e apresentação de uma cantata todos os domingos e feriados.

J. S. Bach viveu em Leipzig desde Maio de 1723 até à sua morte em 1750 e está sepultado na Thomaskirche, na área do altar. Quem entra fica impressionado com o tamanho da abóbada da igreja, a que se deve, ao que dizem, a acústica deste espaço, e com a tensão entre a área do altar e a área diametralmente oposta, onde está situado o órgão principal, já que parece ser este o verdadeiro centro da igreja. Nos fins-de-semana e feriados há concertos à tarde e à noite, aos domingos a música é parte integrante do serviço litúrgico. Quando o recinto da igreja está cheio, a assistência é de 1.500 pessoas, e está sempre cheio. Ainda hoje a Thomaskirche é um dos centros musicais da cidade, provavelmente o mais concorrido e popular.

Bach dirigiu também, de 1729 até pelo menos 1741, o Collegium musicum, fundado por Telemann, e foi para este conjunto estudantil que escreveu alguma da sua música profana, como a Kaffeekantate. Estas composições são semelhantes, do ponto de vista da estrutura, à ópera, e ilustram a faceta mais humorística de Bach. A Kaffeekantate terá sido estreada no Café Hauss, na Katharinenstrasse 14 (o edifício foi destruído durante a 2ª Grande Guerra). Aí se davam à noite concertos que são bem prova da exigência musical da burguesia emergente na cidade de Leipzig.

Se, tal como propõe Hans-Joachim Schulze no seu livro sobre a Kaffeekantate, lermos nos objectos domésticos referidos na relação de bens deixados por Bach, após a sua morte em 1750, um testemunho da vida familiar do compositor, então a composição terá sido também uma "sinfonia domestica", já que no rol havia várias cafeteiras a comprovar como a família Bach terá apreciado beber café.


O "drama per musica" conhecido como Kaffeekantate intitulava-se originalmente Schlendrian und seine Tochter Liesgen e consta de um diálogo entre estas duas personagens, precedidas por uma espécie de apresentador / narrador que ordena aos espectadores que se calem - daí o nome desta cantata BWV 211 "Schweiget still! Plaudert nicht". O libretista foi Picander, pseudónimo de Christian Friedrich Henrici, com quem Bach costumava trabalhar (A Paixão segundo S. Mateus é o seu libreto mais conhecido). O libreto para a Kaffeekantate terá surgido em 1732. Não terá sido o único nem o primeiro a versar o tema do café: já em 1703 o compositor francês Nicolas Bernier tinha publicado uma cantata, Le Caffé, e na Alemanha tinha sido antecedido por duas outras composições, a cantata Lob des Coffee de 1716, de J. C. Krause, e uma outra cantata do café, de 1728, de Daniel Stoppe.

Duas personagens em cena, um pai muito zangado e uma filha muito persistente. O pai censura a filha por lhe desobedecer e não satisfazer o seu desejo de que ela deixe de beber café, ao que a jovem responde que não pode passar sem a sua chávena de café três vezes por dia. Não resisto a parafrasear o resto do diálogo: Schlendrian diz a Liesgen que, se ela não desistir do café, deixará de ter autorização para ir a casamentos ou passeios, ao que ela responde que está bem, desde que possa ter o seu café. O pai diz-lhe então que ela terá de passar sem aquela saia que tanto queria, e sem os adornos de prata e oiro para o chapéu, e que a proibirá de estar à janela, ao que responde que não se importa com nada, desde que possa beber o seu café. Finalmente o pai, cansado e irritado, comunica a Liesgen que ela terá de prescindir de casar. Liesgen pensa melhor e responde que, sendo assim, terá - embora muito contrariada - de dizer adeus ao café. O pai dá-lhe então licença para ter um marido.

Mas a história não acaba aqui, pois Liesgen logo faz constar por toda a cidade que o pretendente que quisesse apresentar-se teria de prometer por escrito, no contrato de casamento, autorizar Liesgen a tomar café quando ela muito bem desejasse.



(a continuar)


Bibliografia:

Hans-Joachim Schulze, Ey! Wie schmeckt der Coffee Süße. Johann Sebastian Bachs Kaffeekantate. Evangelische Verlagsanstalt Leipzig, 2006.

Imagens reproduzidas a partir do mesmo título bibliográfico, ilustrações de Christiane Knorr.

Friday, May 21, 2010




Chemnitz I, Monumento a Karl Marx




Chemnitz talvez não seja a escolha mais óbvia para quem queira visitar uma cidade na Saxónia dos nossos dias. Antiga Karl-Marx-Stadt na era da RDA (de 1953 a 1990), Chemnitz retomou o nome que tinha anteriormente, de origem eslava e relacionado com o rio que passa pela cidade, mas não abdicou do gigantesco Monumento a Karl Marx, o maior busto do mundo (a que chamam "Nischel", a palavra local para "cabeça"). Os habitantes sentem que Karl Marx lhes pertence, não tanto como uma das figuras que a RDA escolheu para emblema nacional, mas mais como alguém que está, tal como Chemnitz, indissoluvelmente ligado à industrialização e ao movimento operário, personalidade incontornável da história europeia e mundial. Se Dresden tem uma tradição aristocrática e artística e Leipzig uma aura cosmopolita por causa das feiras internacionais, Chemnitz é a sede do trabalho e esforço árduo, de produção a muito custo, esses são os valores que aqui imperam ainda hoje. Chemnitz cresceu com a industrialização e foi sede de grandes fortunas no séc. XIX e princípios do séc. XX. O centro da cidade foi quase totalmente destruído no rescaldo da Segunda Grande Guerra, restou uma praça, o Theaterplatz, que se organiza em redor da ópera, da igreja evangélica, St. Petrikirche, e do museu onde estão as colecções de arte de Chemnitz, o König-Albert-Museum.

Talvez não fosse Chemnitz a escolha mais óbvia para quem quisesse visitar uma cidade na Saxónia dos nossos dias. Mas eu tinha o melhor dos pretextos para visitar Chemnitz, o convite de uma pessoa amiga. E se antecipava momentos calorosos, estava muito longe de imaginar a surpresa que me esperava...

(a continuar)


Imagem: Monumento a Karl Marx em Chemnitz


Créditos da imagem: der-atlantikwall.de

Tuesday, May 11, 2010



Margem



Longo tempo

caminhei por uma

muito estreita

margem

como se fosse meu

todo o horizonte




Imagem e créditos: La Equilibrista, flickr.com ("una cierta mirada", Luis Mariano González)

Sunday, May 9, 2010




Convite à Viagem





"Il ne faut pas confondre les livres qu'on lit en voyage et ceux qui font voyager"

André Breton


Procuro

intensamente

livros que fazem viajar





Imagem: Isiah e Benjamin Lane, Ballooning over Paris, Viajando de balão sobre Paris (1890)




Créditos da imagem: artwork.barewalls.com

Saturday, May 8, 2010


Viagem


Uma grande onda

de solidão

trouxe-me

a esta praia



Chansonettes (2010)
Imagem: Robert Doisneau, 49. Quai du Vert Galant, Paris (1946)
Créditos da imagem: gilbertmusings.tumblr.com

Wednesday, May 5, 2010






Jorge Santayana, "Filosofia da Viagem"






Perguntar, como um escritor de língua alemã, onde se está em casa - no lugar onde se nasceu, ou naquele onde se deseja morrer, é formular a mesma coisa em dois momentos diferentes da vida humana, o nascimento e a morte. Entre esses dois momentos, a extensão de uma vida, um movimento em direcção a uma maior consciência. Por um lado, a necessidade humana da casa, do lar, da origem e da finalidade, do destino; por outro lado, a existência humana como viagem, como percurso entre dois portos.


No seu ensaio "Filosofia da Viagem", Jorge Santayana distingue os seres humanos das plantas justamente pela sua capacidade de locomoção. A essa capacidade estaria ligada a inteligência. Assim, mais do que às mãos, o ser humano deveria a sua inteligência aos pés. Aqueles que pensam sentados, para além disso, com olhos fixos no vazio, escreve o ensaísta, consomem-se no sonho, em imagens de coisas remotas e na neblina da memória; ao passo que pensar caminhando nos faz avisados, alerta, ponderando coisas reais na sua ordem real.


Depois de considerar os vários tipos de viajante, desde aquele que nasce - condição da condição humana - passando por aquele que emigra, pelo exilado, pelo explorador, colonizador, pelo mercador, e ainda pelo vagabundo, mas também pelo alpinista, pelo caçador, pelo desportista, até ao último e mais moderno tipo de viajante, o turista, seja ele excursionista ou peregrino, de todos estes dilectos de Hermes o ensaísta afirma: "é sábio deslocar-se o mais frequentemente possível do mais conhecido ao mais estrangeiro: conserva ágil a mente, destrói os preconceitos e fomenta a alegria."


No entanto - e salvaguardando também as viagens que é possível fazer sem nos deslocarmos no espaço, como será o caso da navegação neste blogue, conclui Santayana: "O coração humano é localmente finito e tem raízes: e se a inteligência irradia dele, segundo o seu vigor, para distâncias cada vez maiores, o aprendido, para ser conservado, há-de ir parar a esse centro."


Terá a casa um papel semelhante ao que Santayana atribui ao coração? Se assim é, que responsabilidade a dos senhores arquitectos! Eles, melhor do que ninguém, poderiam glosar o tema. Para nós a "casa" será este centro aqui criado, o blogue que hoje iniciamos, dentro do qual as minhas crónicas à volta do globo serão modestas propostas de conversa e construção. Não prometo uma volta ao mundo, muito menos em 80 dias, na verdade nem prometo nada, apenas partilhar convosco aquilo que me parecer digno de menção. Começo em breve, até já!


(2005)
Créditos da imagem: http://www.galeon.com/