Tuesday, December 13, 2011





Saint-Exupéry, Pilote de guerre e a experiência do fim



Pilote de guerre aparece em língua inglesa em Fevereiro de 1942 sob o título Flight to Arras. A edição é proibida em França pelas autoridades alemãs de ocupação. Tal como os outros livros que escreveu de teor autobiográfico, este romance relata as experiências do autor como piloto de reconhecimento de 1939 a 1940 em França. A situação extrema que vive e presencia - um país ocupado, um exército sem capacidade para lutar, uma sociedade em debandada, torna este texto, que não relata nada sobre a Resistência francesa, um romance de resistência, como bem observa Brigitte Burmeister no posfácio à edição da RDA das obras completas de Saint-Exupéry publicada em 1985. Eis o passo de Pilote de guerre que gostaria de destacar hoje:


"Si maintenant j'espère, quand ils semblent désespérer, je ne m'en distingue pas non plus. Je suis simplement leur part d'espoir. Certes, nous sommes déjà vaincus. Tout est en suspens. Tout s'écroule. Mais je continue d'éprouver la tranquillité d'un vainqueur. Les mots sont contradictoires? Je me moque des mots. (...) Nous ne disposons d'aucun langage pour justifier notre sentiment de victoire. Mais nous nous sentons responsables. Nul ne peut se sentir, à la fois, responsable et désespéré.
Défaite... Victoire... Je sais mal me servir de ces formules. Il est des victoires qui exaltent, d'autres qui abâtardissent. Des défaites qui assassinent, d'autres qui réveillent. La vie n'est pas énonçable par des états, mais par des démarches. La seule victoire dont je ne puis douter est celle qui loge dans le pouvoir des graines. Plantée la graine, au large des terres noires, la voilà déjà victorieuse. Mais il faut dérouler le temps pour assister à son triomphe dans le blé.
Il n'était rien ce matin qu'une armée démantibulée et une foule en vrac. Mais une foule en vrac, s'il est une seule conscience où déjà elle se noue, n'est plus en vrac. Les pierres du chantier ne sont en vrac qu'en apparence, s'il est, perdu dans le chantier, un homme, serait-il seul, qui pense cathédrale. Je ne m'inquiète pas du limon épars s'il abrite une graine. La graine le drainera pour construire.
Quiconque accède à la contemplation se change en semence. Quiconque découvre une évidence tire chacun par la manche pour la lui montrer. Quiconque invente prêche aussitôt son invention. (...) J'entrevois mieux le principe des victoires: celui-là qui s'assure d'un poste de sacristain ou de chaisière dans la cathédrale bâtie, est déjà vaincu. Mais quiconque porte dans le coeur une cathédrale à bâtir, est déjà vainqueur. La victoire est fruit de l'amour. L'amour reconnaît seul le visage à pétrir. L'amour seul gouverne vers lui. L'intelligence ne vaut qu'au service de l'amour." (Antoine de Saint-Exupéry, Pilote de guerre, in: A.S-E., Oeuvres. Paris: Gallimard, 1959, p. 364-5, sublinhado meu)

Monday, December 12, 2011







Saint-Exupéry, Terre des Hommes e a experiência do fim



Tenho estado a ler/reler toda a obra de Antoine de Saint-Exupéry e gostava de partilhar com os leitores alguns textos em que o aviador/escritor fala de experiências extremas, quando pensava ter chegado ao fim e não havia qualquer vislumbre de esperança. Aconteceu-lhe a primeira vez em 1935, no deserto da Líbia, quando tentava bater o recorde da ligação Paris-Saigão e foi obrigado a fazer uma aterragem de emergência a 200 quilómetros do Cairo, perto de Wadi El Natrun e do delta do Nilo.



"O deserto? Foi-me dado conhecê-lo um dia através do coração. Durante um voo conjunto para a Indochina, em 1935, encontrei-me no Egipto, próximo da fronteira com a Líbia, prisioneiro das areias como de uma substância viscosa, e julguei que era o fim. Eis a história." (Antoine de Saint-Exupéry, Terra dos Homens, Mem Nartins: Europa-América, 1995, p. 74, trad. de Maria Georgina Segurado; citações desta edição).

"Le désert? Il m'a été donné de l'aborder un jour par le coeur. Au cours d'un raid vers l'Indochine, en 1935, je me suis retrouvé en Égypte, sur les confins de la Libye, pris dans les sables comme dans une glu, et j'ai cru en mourir. Voici l'histoire." (Antoine de Saint-Exupéry, Terre des Hommes, in: A.S-E., Oeuvres. Paris: Gallimard, 1959, p. 209).

Nenhum dos dois tripulantes sabia ao certo onde se encontram, nem Saint-Ex nem o mecânico, André Prévot, e a primeira reacção é dizerem que é um milagre incrível estarem vivos: "enquanto durmo, faço o balanço da nossa aventura: ignoramos tudo a a respeito da nossa posição. Não temos sequer um litro de líquido." (p. 83).

"Je fais en m'endormant le bilan de notre aventure: nous ignorons tout de notre position. Nous n'avons pas un litre de liquide." (p. 219)

"Vem-me à lembrança aquilo que sei sobre o deserto da Líbia. Predominam no Sara 40% de humidade, quando ela desce aqui aos 18%. E a vida evapora-se como um vapor. Os Beduínos, os viajantes, os oficiais coloniais, ensinam que se aguenta dezanove horas sem beber. Passadas vinte, os olhos enchem-se de luz e é o começo do fim: o percurso da sede é fulminante." (p. 88-9)

"Il me revient à la mémoire ce que je sais du désert de Libye. Il subsiste, dans le Sahara, 40 pour cent d'humidité, quand elle tombe ici à 18 pour cent. Et la vie s'évapore comme une vapeur. Les Bédouins, les voyagers, les officiers coloniaux, enseignent que l'on tient dix-neuf heures sans boire. Après vingt heures les yeux se remplissent de lumière et la fin commence: la marche de la soif est foudroyante." (p. 225)

"Ontem caminhei sem esperança. Hoje, essas palavras perderam o sentido. (...)
O deserto sou eu. Já não formo mais saliva, mas também já não formo as doces imagens que me teriam levado a gemer. O sol secou em mim a fonte das minhas lágrimas.
E no entanto, o que detectei? Um sopro de esperança que passou por mim como um pé de vento sobre o mar. Qual o sinal que acaba de alertar o meu instinto antes de me atingir a consciência? Nada mudou e, no entanto, tudo está mudado. Este lençol de areia, estes outeiros e estas ligeiras manchas de verdura já não constituem a paisagem, mas uma cena. Uma cena ainda vazia, mas a postos. (...)
Juro-vos que se vai passar algo.
Juro-vos que o deserto ganhou vida. Juro-vos que esta ausência, que este silêncio são bem mais comoventes do que um tumulto em praça pública..." (p. 102)

"Hier, je marchais sans espoir. Aujourd'hui, ces mots ont perdu leur sens. (...)
Le désert, c'est moi. Je ne forme plus de salive, mais je ne forme plus, non plus, les images douces vers lesquelles j'aurais pu gémir. Le soleil a séché en moi la source des larmes.
Et cependant, qu'ai-je aperçu? Un souffle d'espoir a passé sur moi comme une risée sur la mer. Quel est le signe qui vient d'alerter mon instinct avant de frapper ma conscience? Rien a changé, et cependant tout a changé. Cette nappe de sable, ces tertres et ces légères plaques de verdure ne composent plus un paysage, mais une scène. Une scène vide encore, mais toute préparée. (...)
Je vous jure qu'il va se passer quelque chose...
Je vous jure que le désert s'est animé. Je vous jure que cette absence, que ce silence sont tout à coup plus émouvants qu'un tumulte de place publique..." (p. 240-1)


Imagens:
1., Tarfaya, Cap Juby, Marrocos, monumento de homenagem a Antoine de Saint-Exupéry

2., deserto do Saara

3., Wadi El Natrun

Sunday, December 11, 2011



Festival Kurt Weill 2012 em Dessau







Em 2011 o Festival Kurt Weill homenageou a cidade de Berlim no percurso do compositor alemão. Depois do sucesso de "Berlim iluminada" ("Berlin im Licht"), em 2012 será Paris o tema do Festival ("Homenagem a Paris"), recordando a passagem de Weill por essa cidade. O 20º Festival Kurt Weill na cidade natal do compositor, Dessau, perto de Berlim, cidade importante também pela permanência do movimento "Bauhaus", propõe para 2012 uma homenagem aos dois anos que Weill passou em Paris, de 1933 a 1935. Weill fugia da perseguição nazi mas, tal como os anos de Berlim, também estes dois anos em Paris foram especialmente produtivos. De Paris data, em especial, a peça Marie Galante, da qual recordamos uma canção na interpretação de Teresa Stratas (do belo documentário September Songs de Larry Weinstein, 1994, vd. em baixo o cartaz), e o bailado Die sieben Todsünden. A estadia em Paris teve importância e repercussão duradoura na produção de Kurt Weill, em especial pelo diálogo com outros intelectuais e compositores, como Darius Milhaud. O Festival apresenta, entre 24 de Fevereiro e 11 de Março de 2012, uma variedade de espectáculos na cidade alemã de Dessau - valerá a pena a visita.






Pode ver a versão de Marie Galante em filme aqui

Pode consultar o programa do Festival Kurt Weill aqui




Friday, November 25, 2011


Calendário de Advento em Leipzig




Costumamos vê-los durante o Advento na Alemanha em quantidades industriais, a atrair as atenções no sítio de maior destaque nas lojas e supermercados, profusamente coloridos, e com quadradinhos de janelas de 1 até 24: são os calendários de Advento, para abrir do dia 1 de Dezembro até ao dia de Natal. Pelo caminho, quem abre as janelas de cartão, seguindo o curso dos dias no calendário, vai recebendo chocolates. Oferecem-se, sobretudo às crianças, para preparar o Natal e o ambiente natalício. A cidade alemã de Lípsia (Leipzig) tem agora na Böttchergäßchen, em frente a um dos museus da cidade, o maior calendário de Advento do mundo ao ar livre, com 857 metros quadrados de superfície. Situa-se no centro de Lípsia, ocupado por estes dias até ao Natal por um enorme mercado de Natal (Weihnachtsmarkt) com inúmeras barraquinhas de "comes e bebes" e de produtos diversos, com carrosséis e uma roda gigante, juntando ao Natal elementos de feira popular.
Não posso deixar de pensar - quem dera que os quadradinhos de chocolate, mais do que um triste e cinzento consumismo, representassem autênticas janelas de luz até ao Natal, e para todos...

Thursday, September 29, 2011


Cartaz da exposição "Max Beckmann - Von Angesicht zu Angesicht",
"Max Beckmann - Face a face, percorrendo rostos",
numa das paredes laterais do Museu de Belas-Artes de Leipzig

Max Beckmann, "Quappi in Blau", "Quappi de azul", 1926
(Pinacoteca de Munique)



Max Beckmann em Leipzig


O Museu de Belas-Artes de Leizpig mostra uma exposição de Max Beckmann "Von Angesicht zu Angesicht", "Face a face - percorrendo rostos", de 17 de Setembro de 2011 a 22 de Janeiro de 2012. Este pintor expressionista nasceu em Leipzig em 1884 e veio a morrer em Nova Iorque em 1950. A exposição é a primeira, desde os anos 1960, dedicada à arte do retrato em Max Beckmann, e exibe 58 quadros a óleo e 160 estudos, desenhos e esboços, vindos de toda a Alemanha e do estrangeiro. A exposição como que constitui uma galeria dos familiares e pessoas amigas que fizeram parte da vida de Max Beckmann e que ele retratou. Através de desenhos e esboços, podemos ao mesmo tempo seguir o olhar do pintor desde a primeira impressão até à fixação no quadro.

Uma sala ainda alarga a exposição e é dedicada a diálogos contemporâneos com a obra de Max Beckmann, apresentando quadros de Marlene Dumas, nascida na Cidade do Cabo em 1953, e Alex Katz, nascido em Nova Iorque em 1927. Ambos os artistas, figuras importantes da pintura do nosso tempo, se referem a Max Beckmann como um dos principais modelos da sua obra.


Fonte: site do Museu de Belas-Artes de Leipzig, "Museum der bildenden Künste Leipzig", foto do exterior do Museu minha


Monday, September 12, 2011





A Voz das Máquinas no Museu da Música Portuguesa - uma exposição para ver, ouvir e... aprender muito

II - A exposição


They all laughed at Christopher Columbus
When he said the world was round
They all laughed when Edison recorded sound

George e Ira Gershwin, They All Laughed

Até 30 de Outubro de 2011 pode ainda visitar a exposição A Voz das Máquinas no Museu da Música Portuguesa - Casa Verdades de Faria, no Estoril, e deliciar-se com um conjunto significativo da colecção particular de Luís Cangueiro, desta vez mostrando fonógrafos e gramofones, evocando a era dos primeiros inventores dos instrumentos de gravação de voz e som, Thomas Edison (1847-1931) e Émile Berliner (1851-1929).

A peça que podemos ver no cartaz da exposição, Idéal Mixte, França, 1904, é uma peça que faz a transição entre o fonógrafo e o gramofone, equipada com ambos os processos de leitura e com duas campânulas individualizadas, que permitem a audição do disco ou do cilindro. A Idéal Mixte está em destaque na Exposição e marca a passagem para a segunda sala, e a transição do fonógrafo para o gramofone. Trata-se de uma peça que se destaca não só pela originalidade, mas sobretudo pela sua raridade.





Ainda na primeira sala, a gravura que podemos ver em cima à direita data da Exposição Universal de Paris de 1889 e mostra, através da expressão dos rostos dos visitantes, a grande curiosidade e interesse despertado pela audição em simultâneo de um registo de fonógrafo de Edison.



Já na segunda sala, podemos ver o gramofone Berliner, EUA, 1900, associado à imagem do cão mais famoso da história do som, que conhecemos como "His Master's Voice", ou "A Voz do Dono", em Portugal. Na verdade, este cão tem não só nome, como também uma história comovente. Chamava-se Nipper e o dono, um inglês de ascendência francesa, costumava gravar a própria voz em discos de fonógrafo. Quando o dono de Nipper morreu, o irmão, o pintor Francis Barraud, herdou estes registos de voz e ficou encarregado de cuidar de Nipper. Sempre que Barraud tocava um cilindro com a voz do irmão, Nipper reconhecia a voz do dono e ficava na atitude atenta que conhecemos da imagem de marca. Barraud inspirou-se nessa atitude de Nipper e pintou um quadro a que deu o título His Master's Voice. Concluído o quadro, Barraud lembrou-se de procurar Edison para lho vender como símbolo da fidelidade dos seus fonógrafos, que permitiam ao cão reconhecer a voz do dono. Como Edison tivesse recusado, Barraud repetiu a proposta ao representante na Inglaterra desde 1899 de Émile Berliner, William Owen. Tendo a proposta sido aceite, Barraud modificou o quadro, pintando sobre o fonógrafo de Edison o gramofone de Berliner. Esta peça faz assim, de igual modo, a transição entre o fonógrafo e o gramofone, além de eternizar Nipper, um cão que, para além da celebrada virtude da fidelidade, tinha também muito bom ouvido.






Panorâmica da segunda sala


Pathé Concert Nº 3, França, 1913 (pormenor), peça de grande riqueza decorativa em zinco, de Legrand. Com som muito forte, destinava-se a salas de espectáculos e de baile.




Multiphone, França, 1914 (pormenor), exemplar muito raro de juke-box com moedeiro, um dos primeiros aparelhos a oferecer a escolha do disco.



Bell Horn Phonograph, EUA, 1920, máquina invulgar equipada com uma campânula acústica de metal em forma de sino, com motor, prato e respectivo braço. A peça adicional de bailarinos podia acompanhar vários ritmos musicais, executando passos de dança diferentes.



Secção de gramofones para crianças. A peça à direita chama-se Eureka, da Alemanha, 1903, e foi adoptada por uma marca belga para fazer publicidade aos chocolates Stollwerk, fabricando discos que podiam ser comidos após a audição.


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World War II, Alemanha, 1939, esta grafonola de guerra destinava-se aos soldados da II Guerra Mundial. Aqui, o dispositivo adicional liga o som à imagem, produzindo uma imagem cinemática (neste caso um comboio), que podemos contemplar enquanto ouvimos o som (Bon voyage!).

Resta-me sublinhar que todas as peças da exposição estão magnificamente conservadas, podendo ser não só vistas, mas também ouvidas no recinto da exposição.

Com isto não quero de modo nenhum despedir-me dos leitores deste blogue, voltem sempre, apenas desejar-lhes boa viagem até ao Museu da Música Portuguesa, para ver ainda até 30 de Outubro de 2011 a exposição A Voz das Máquinas!


Fontes:

Catálogo da Exposição Voz das Máquinas - Museu da Música Portuguesa, Cascais, 2011

Fonógrafos e Gramofones, Colecção Particular de Luís Cangueiro. Edição Quinta Do Rei - Lazer e Cultura. Lda, 2008


Site do futuro Museu da Música Mecânica em Palmela:



Os meus agradecimentos muito especiais ao Dr. Luís Cangueiro pela autorização para fotografar o recinto da exposição, e à Drª Andreia Martins pela instrutiva visita guiada

Friday, August 5, 2011







A Voz das Máquinas no Museu da Música Portuguesa - uma exposição para ver, ouvir e... aprender muito

I - O espaço

They all laughed at Christopher Columbus
When he said the world was round
They all laughed when Edison recorded sound
  
George e Ira Gershwin, They All Laughed


       Há muito que deixei de me preocupar demasiado com os intervalos na minha ocupada vida em que me permito o luxo de seguir sem rumo fixo ou predeterminado, naquilo a que se costuma chamar deriva. É certo que se vai sem destino, sem um objectivo que à partida se conhece, mas sem esse alvo a atingir toda a nossa atenção se pode concentrar no que vamos encontrando pelo caminho, à medida que avançamos, e os nossos sentidos parecem regressar à sua potencialidade primeira, sem as exigências próprias do raciocínio lógico. E depois, talvez a deriva seja afinal mais do que isso: como escreve Rui Zink algures, "Uma verdadeira peregrinação parece quase sempre ao princípio (...) uma errância sem sentido". Não sei se este pequeno passeio de princípio de manhã estival se insere nessa categoria maior da viagem, mas no meu caso qualquer movimento tem sempre a ver com uma busca de sentido (nem sempre consciente). Até porque quem escreve estas linhas é curiosa como os gatos... e quem sabe se os gatos não procuram também um sentido, bem à maneira deles? Já que até sabem escolher os donos... sem ofensa para os donos de cães, que daqui a nada já vou também falar deles (i.e., dos cães!).



       Eis então o que descobri desta vez, passeando ao acaso no Estoril numa bela manhã de Verão: de repente encontrei-me diante da porta do Museu da Música Portuguesa e fiquei deslumbrada com o que me foi dado ver, um espaço arquitectónico maravilhoso, uma "casa portuguesa", segundo o traço de Raul Lino, que alberga preciosos acervos, portugueses também, conjuntos de instrumentos legados por Lopes-Graça e Giacometti. E ainda uma belíssima exposição temporária intitulada A Voz das Máquinas, mostra de fonógrafos e gramofones da colecção de Luís Cangueiro, única em Portugal, que nos faz viajar ao período que vai desde os finais do séc. XIX, quando começavam a fazer-se os primeiros registos de som, até aos anos 30 do séc. XX. Mas sobre isso poderá ler, ver e ouvir mais num próximo post deste blogue. Para já, fotografias do Museu de Música Portuguesa - Casa Verdades de Faria,  num dia cheio de sol e muita, muita luz.














(a continuar)

Saturday, May 28, 2011

Ana Nobre de Gusmão na Universidade de Leipzig





A escritora portuguesa Ana Nobre de Gusmão esteve na Alemanha e fez sessões de leitura nas universidades de Mainz / Germersheim, Leipzig e Hamburgo. Em Leipzig, a sessão de leitura teve lugar a 26 de Maio de 2011, sob a égide do Instituto de Romanística e do Instituto Camões. A autora leu passos dos seus romances Delito sem corpo (Prémio Máxima Revelação de 2006) e Aves do paraíso. Judith Bettermann e Philipp Czapik leram os mesmos passos dos romances na versão alemã (Spiegel der Angst e Die Seherin, ambos publicados no Weidle Verlag).

Agradecemos esta leitura a Ana Nobre de Gusmão, bem como a interessante troca de impressões com os estudantes e professores presentes no público. De destacar a presença dos professores do Instituto de Romanística Doutora Christine Hundt, Doutora Cornelia Doell, Doutora Claudia Gatzemeier e Doutor René Ceballos.

No início da sessão, o grupo musical de estudantes de Português do Instituto de Romanística da Universidade de Leipzig, LusoNautas, deu as boas-vindas à escritora, interpretando "Milho verde" (canção popular portuguesa no arranjo de José Mário Branco).






Os LusoNautas foram: Ana Maria Delgado, Anne John, Hannah Rothmaier, Judith Bettermann (voz e guitarra), Margaretha Wolff, Philipp Czapik (voz e percussão), Sara Mendéz, Sara Rudolph e Tatjana Zyrko, representando os seguintes países: Alemanha, Bielorússia, Espanha, e Portugal.

Sunday, May 8, 2011



No coração de Sophia


O post anterior, sobre o 25 de Abril, e aquilo que concluí em breve texto sobre a necessidade de constantemente fazermos a sua actualização nas nossas vidas, recordou-me este passo que nos leva directamente ao que considero o "coração da obra" de Sophia de Mello Breyner Andresen:


"A poesia é oferecida a cada pessoa uma só vez e o efeito da negação é irreversível. O amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais. Mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias."

O passo insere-se num dos seus Contos Exemplares, escritos em 1962 tomando como exemplo Cervantes, o conto "Mónica". Caracterizando e caricaturando Mónica, personagem-tipo da época que se vivia então em Portugal, é este o contexto do passo acima citado, falando a narradora do sucesso social de Mónica:

"Por trás de tudo isto há um trabalho severo e sem tréguas e uma disciplina rigorosa e constante. Pode-se dizer que Mónica trabalha de sol a sol.


De facto, para conquistar todo o sucesso e todos os gloriosos bens que possui, Mónica teve que renunciar a três coisas: à poesia, ao amor e à santidade.

A poesia é oferecida a cada pessoa uma só vez e o efeito da negação é irreversível. O amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais. Mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias.


Isto obriga Mónica a uma disciplina severa. Como se diz no circo, 'qualquer distracção pode causar a morte do artista'. (...) Como um instrumento de precisão, ela mede o grau de utilidade de todas as situações e de todas as pessoas. E como um cavalo bem ensinado, ela salta sem tocar os obstáculos e limpa todos os percursos."

O passo oferece a chave para a compreensão do curto conto "Mónica", funcionando assim como mise-en-abîme do texto, conduzindo-nos simultaneamente ao essencial da obra da escritora e poeta, ao coração de Sophia...



Fotografia de Eduardo Gageiro

Monday, April 25, 2011




25 de Abril, sempre - e todos os dias!




"Nichts wird geschenkt", escrevia o poeta alemão Johannes Becher, "Nada é oferecido" - porque tudo tem de ser conquistado, i.e., praticado - todos os dias. Vale a pena olhar de novo para o postal de João Abel Manta para a série MFA - Campanha de dinamização cultural, "Natal 1974 - Os presentes das Forças Armadas".

Saturday, April 23, 2011






Mahler nas alturas











De 17 a 29 de Maio festejam-se em Leipzig os 100 anos de aniversário da morte de Gustav Mahler. Em Leipzig estarão nestes 14 dias, em honra do compositor, as orquestras do Gewandhaus, do Concertgebouw, a London Symphony, a Mahler Chamber, a MDR Sinfonieorchester, a New York Philarmonic, a Sächsische Staatskapelle Dresden, a Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks, a Tonhalle-Orchester Zürich, e os Wiener Philarmoniker - ou seja, as melhores orquestras do mundo.



Os dois anos que Mahler viveu em Leipzig como segundo maestro foram decisivos no seu percurso criativo, já que foi nesta cidade que começou a escrita sinfónica. Com 26 anos quando chegou a Leipzig, estreou-se em 1886 com o Lohengrin de Wagner, dirigiu cerca de 140 representações no primeiro ano e mais de 200 no segundo. Após a estreia da sua versão da ópera Die drei Pintos de Carl Maria von Weber, compôs em Leipzig, em apenas seis semanas, a sua 1ª Sinfonia, e também aqui foram compostas muitas das canções do ciclo Wunderhornlieder, que mais tarde iriam ecoar nas Sinfonias.



Por ocasião deste Festival Internacional de Mahler, será lançado o volume Mahler in Leipzig, que poderá ser adquirido no Gewandhaus durante o Festival, ou encomendado ao Verlag Klaus-Jürgen Kamprad, para



Fonte: http://www.gewandhaus.de/

Podemos ouvir a apresentação do Festival por Riccardo Chailly, maestro titular do Gewandhaus de Leipzig:

Friday, April 22, 2011






A todos, votos de uma feliz Páscoa!

Thursday, April 14, 2011




Lichtes Dunkel - dunkles Licht


Exposição de pintura sobre Kafka em Görlitz





Se visitar a cidade mais oriental da Alemanha, nos arredores de Dresden, na Saxónia, não for suficientemente apelativo para si, há agora um motivo adicional para visitar Görlitz: uma exposição de pintura sobre Franz Kafka, por muitos considerado o "pai da literatura moderna". A exposição, intitulada Lichtes Dunkel - dunkles Licht (Sombra luminosa - Luz sombria), apresenta gravuras de Jürgen Kiecker, de Bernau, sobre textos de Kafka. Até 28 de Abril, a Annenkapelle de Görlitz tem o seu espaço preenchido com vários eventos culturais à volta desta exposição e da figura literária de Kafka.



Görlitz fica numa das margens do rio Neisse, que traça a fronteira da Alemanha com a Polónia - do outro lado do rio fica Zgorzelec, ou a Görlitz do Leste. As duas cidades vizinhas têm respectivamente 57 e 33 mil habitantes.


O filósofo e místico alemão Jakob Böhme, que viveu os seus últimos anos em Görlitz, e aí veio a morrer a 17 de Novembro de 1624, não é a personalidade mais misteriosa relacionada com Görlitz: o mistério maior envolve, desde 1995, o doador anónimo que, todos os anos, contribui com meio milhão de euros para a cidade. O dinheiro tem sido aplicado predominantemente no restauro de monumentos e, se decidir ir a Görlitz, poderá ver pelos seus próprios olhos e deliciar-se com o resultado.

Monday, March 21, 2011


Anne Sofie von Otter, "Foolish Heart" (One Touch of Venus, música de Kurt Weill)



Anne Sofie von Otter, "I'm a Stranger Here Myself" (One Touch of Venus, música de Kurt Weill)


Marisa Monte, "Speak Low" (One Touch of Venus, música de Kurt Weill)
Agora que terminou, por este ano, o Festival Kurt Weill em Dessau, aqui ficam três canções da peça com música de Weill, One Touch of Venus, nas interpretações e vozes de Marisa Monte (melhor versão de "Speak Low" que conheço) e de Anne Sofie von Otter ("I'm a Stranger Here Myself" e "Foolish Heart", vd. posts seguintes).


Wednesday, February 16, 2011


Berlin im Licht , Berlim Iluminada

- Festival Kurt Weill 2011 em Dessau



Berlin im Licht, Berlim Iluminada, é o título para a edição deste ano do Festival Kurt Weill em Dessau, que terá lugar de 25 de Fevereiro a 13 de Março, festejando o aniversário do compositor, nascido nesta cidade alemã a 2 de Março de 1900. Esta é já a 19ª edição deste Festival, organizada pela Sociedade de Kurt Weill, presidida por Thomas Markworth, e pelo Comissário do Festival Kurt Weill de Dessau, Michael Kaufmann (vd. vídeo publicitário do YouTube em baixo com os dois agentes culturais).

Em Setembro de 1928 as companhias de gás e electricidade de Berlim resolveram planear um festival de luzes de grandes dimensões na cidade, sob o mote "Berlin im Licht". Queriam com isto chamar a atenção para Berlim como grande metrópole moderna, depois da derrota na Primeira Grande Guerra em 1918. Este mote, que deu título a uma canção de Kurt Weill - à época já bem conhecido como compositor e como co-criador, com Bertolt Brecht, do teatro épico - (vd. vídeo do YouTube em baixo, com o Ensemble Modern e a voz de Heinz Karl Gruber), é hoje retomado para iniciar um ciclo em Dessau que irá continuar nos próximos anos, iluminando também outras cidades que foram importantes no percurso do compositor, Paris, em 2012, e Nova Iorque, em 2013.

Do longo e variado programa do Festival deste ano destaca-se a ópera de Kurt Weill Der Protagonist (O Protagonista), com texto de Georg Kaiser, que abrirá o Festival, e a comédia musical em dois actos de Kurt Weill segundo o livro de S. J. Perelman e F. Ogden Nash One Touch of Venus, ambas pela companhia Anhaltisches Theater Dessau.

Valerá a pena ir a Dessau, cidade natal de Kurt Weill, compositor clássico da modernidade, e mergulhar no mundo da República de Weimar e dos "Golden Twenties" na Alemanha. Valerá a pena pela música de Kurt Weill e também pela cidade de Dessau, que é Património Mundial da UNESCO, pelas casas da Escola de Bauhaus da autoria de Walter Gropius, Muche/Schlemmer e Kandinsky/Klee. Mas sobre isto talvez haja mais a contar numa próxima vez!

Sunday, February 13, 2011

Glanzlicht - Magia da Luz


Ainda um breve clip da exposição Glanzlicht, Magia da Luz, na Escola Superior de Artes Plásticas de Leipzig (vd. post anterior):

Saturday, February 12, 2011





Glanzlicht
Magia da Luz



Hochschule für Grafik und Buchkunst


Escola Superior de Artes Plásticas



Assim é todos os anos por esta altura: uma exposição colectiva dos alunos da Escola Superior de Artes Plásticas de Leipzig mostra o que aprenderam e aquilo de que são já capazes. Toda esta criatividade e juventude pode ver-se numa exposição que, muito mais do que isso, é uma verdadeira festa! A Escola abriu as portas, e todas as oficinas de trabalho e estúdios, ao olhar do público - as salas estão agora cheias, mostrando o resultado do trabalho conjunto dos jovens alunos e dos seus professores, projectos e obras comuns realizados no ano passado.


Por todo o lado e em cada recanto há pequenos bares com comes e bebes e muita gente que passeia e se deleita com muitas novidades que, diz-se, marcam as novas tendências nas Artes Plásticas em toda a Alemanha e não só. A mostra está aberta apenas quatro dias, de quinta a domingo, e é preciso aproveitar, mas todos os dias está aberta até às 22h, hora relativamente tardia para o contexto alemão. Cada estúdio e oficina mostra uma disciplina diferente dos quatro ramos da Escola - Pintura/Artes Gráficas, Fotografia, Artes Visuais, Impressão e Design (podemos ver fotografia, pintura, desenho, ilustração, filme, instalação, etc), e um ponto de vista singular.


O visitante surpreende-se em cada sala e pede-se-lhe até que participe na obra, por exemplo na sala "Can you handle this?", projecto performativo do curso de "Systemdesign" transformado em laboratório de design: o espectador que quiser participar segue instruções para dispor objectos à maneira de uma natureza-morta provisória - o resultado é simultaneamente projectado num écran e fixado em fotografia.


A Hochschule für Grafik und Buchkunst (HGB) de Leipzig, fundada em 1764, é uma das mais antigas da Alemanha e conta, presentemente, com cerca de 530 alunos.





Quem desenha permanece jovem


Da sala "Deus e o Mundo"














Anne e Cornelia divertem-se a ver projecções de animais
na vidraça de uma porta














Going upstairs!













Obrigada à Anne e à Cornelia pela companhia nesta visita à mostra Glanzlicht na Escola Superior de Artes Plásticas de Leipzig!