Monday, January 18, 2016

"Poemas das Portuguesas: a voz e a alma das poetas lusas na memória das mulheres emigrantes portuguesas em Hamburgo", no restaurante-galeria Nau, a 14 de dezembro de 2015




       O evento "Poemas das Portuguesa: a voz e a alma das poetas lusas na memória das mulheres emigrantes portuguesas em Hamburgo" foi idealizado por Luisa Pais Lowe com o objetivo de homenagear a comunidade portuguesa em Hamburgo, nomeadamente as mulheres emigrantes, através da memória poética que é parte essencial da identidade (da "alma").

       A primeira parte do título do evento refere-se ao livro de poemas da autora inglesa Elizabeth Barrett Browning Sonnets from the Portuguese, publicado em 1850, e escrito entre 1845-46 durante o período em que a poeta conheceu o futuro marido, o também escritor Robert Browning. Só mais tarde partilharia com ele esses poemas de foro íntimo e, para se protegerem da curiosidade do público vitoriano da época, resolveram publicar o volume com um título que, no entanto, se referia à autora, que era de estatura pequena e tinha cabelos e olhos escuros, e a quem o marido chamava "my little Portuguese".

       No evento, que teve lugar a 14 de dezembro de 2015 às 17,30h, seis portuguesas, incluindo a Senhora Cônsul Geral de Portugal em Hamburgo, Drª Luisa Pais Lowe, apresentaram e leram poemas de autoras portuguesas que as acompanharam na emigração para a Alemanha. No final dialogaram com o público, que colocou questões e fez perguntas.

       A sessão teve o apoio do Camões, I.P. e foi organizada em parceria com o Centro de Língua Portuguesa - Camões da Universidade de Hamburgo, e com o restaurante-galeria Nau, no Bairro Português de Hamburgo.

       O Embaixador João Mira Gomes esteve presente neste evento sobre poesia no feminino num contexto migratório, incluído na sua primeira visita oficial a um Estado Federado alemão, entre 13 e 15 de dezembro de 2015. Na receção que se seguiu, com prova de vinhos e iguarias portuguesas, o Senhor Embaixador conversou com membros da comunidade portuguesa de Hamburgo e de outros estados da área consular de Hamburgo, em especial Bremen, Schleswig-Holstein e Baixa Saxónia.

(Vd. texto da página do Facebook da Embaixada de Portugal em Berlim, Alemanha, de 18 de dezembro de 2015)

Aspeto inicial do público do evento

SE Embaixador de Portugal em Berlim, João Mira Gomes


A escolha de Ana (Sophia de Mello Breyner Andresen, "Ítaca")


A escolha de Ana 

Ana Maria Delgado, Responsável pelo Centro de Língua Portuguesa e Leitora do Camões, I.P. na Universidade de Hamburgo, veio para a Alemanha, pela sexta vez, em 2012.

Sophia de Mello Breyner Andresen 

Ítaca 



Quando as luzes da noite se reflectirem imóveis nas águas verdes de Brindisi

Deixarás o cais confuso onde se agitam palavras passos remos e guindastes

A alegria estará em ti acesa como um fruto
Irás à proa entre os negrumes da noite
Sem nenhum vento sem nenhuma brisa só um sussurrar de búzio no silêncio

Mas pelo súbito balanço pressentirás os cabos
Quando o barco rolar na escuridão fechada 
Estarás perdida no interior da noite no respirar do mar
Porque esta é a vigília de um segundo nascimento

O sol rente ao mar te acordará no intenso azul
Subirás devagar como os ressuscitados
Terás recuperado o teu selo a tua sabedoria inicial 
Emergirás confirmada e reunida 
Espantada e jovem como as estátuas arcaicas 
Com os gestos enrolados ainda nas dobras do teu manto 

In Geografia, 1967



A escolha de Adelina (Regina Correia, "Neste lugar onde já não estás")


A escolha de Adelina

Adelina Sedas, assistente social, veio para a Alemanha em 1964 e pertence à primeira geração de portugueses neste país, sendo uma referência cultural incontornável em Hamburgo. 


Regina Correia 


Neste lugar onde já não estás 



Neste lugar onde já não estás

eis o sol tomando a hora do assombro

lugar de incêndio em tons de verde 

o olhar vidrado das raparigas.


Ei-las de novo fogo e maré
no furor do gesto, no ondear da tarde, 
na cadência alada de cada passo
que a cidade acolhe em sobressalto. 

Eis o poente esvaído em chama 
sobre a montanha, por sobre as águas 
bendito leito de aves regressando a 
este lugar onde já não estás. 

Eis a inocência louca dos amantes
agora solta em cada corpo ardendo
na paixão febril e imprevista
no dorso aveludado do anoitecer. 

Eis o tumulto, eis a sedução
no róseo esplendor da magnólia
coroando o despertar da terra 
neste lugar onde já não estás. 

E eis-me tangencial à morte 
só abandono e sombra, quase volátil 
porque já não estás neste lugar 
onde fomos ave, quimera, sagrado canto. 

In Sou Mercúrio, Já Fui Água, 2001 




A escolha de Filipa (Maria Guiomar Ávila, "Quando a saudade vem")


A escolha de Filipa 


Filipa Baade, professora de Português e membro da Direção da Associação 

Luso-Hanseática de Hamburgo, veio para a Alemanha em 1968. 



Maria Guiomar Ávila 



Quando a saudade vem 



Quando a saudade vem, inesperada,

Nasce uma doce luz no meu olhar:
Luz de ocaso caindo sobre o mar
Da minha vida triste, amargurada. 

Quando a saudade vem, já não há nada
No coração que fique por lembrar. 
Tudo dizemos mesmo sem falar
E esse silêncio é paz abençoada.

Quem poderá dizer o que é saudade? 
A nostalgia da felicidade… 
Talvez recordações de uma emoção… 
O tempo, a pouco e pouco, vai passando 
E a saudade lá vem, de quando em quando, 
Aninhar-se no nosso coração. 

In À Janela da Vida, 1998 

A escolha de Alexandra (Ana Luísa Amaral)



A escolha de Alexandra 

Alexandra Schmidt, filóloga e professora de inglês e alemão, nasceu em Hamburgo, filha de pais portugueses, representando a segunda geração de emigrantes. Depois de 20 anos em Portugal, voltou para a Alemanha em 2011.  






Ana Luisa Amaral 



Lugares Comuns



Entrei em Londres 

num café manhoso (não é só entre nós que há cafés manhosos, os ingleses também, e eles até tiveram mais coisas, agora é só a Escócia e parte da Irlanda e aquelas ilhotazitas, mais adiante) 

Entrei em Londres 

num café manhoso, pior ainda que um nosso bar de praia (isto é só para quem não sabe fazer uma pequena ideia do que eles por lá têm), era mesmo muito manhoso, 
não é que fosse mal intencionado, era manhoso na nossa gíria, muito cheio de tapumes e de cozinha 
suja. Muito rasca. 
Claro que os meus preconceitos todos 
de mulher me vieram ao de cima, porque o café só tinha homens a comer bacon e ovos e tomate (se fosse em Portugal era sandes de queijo), mas pensei: Estou em Londres, estou sozinha, quero lá saber dos homens, os ingleses até nem se metem como os nossos, e por aí fora... 
E lá entrei no café manhoso, de árvore de plástico ao canto. Foi só depois de entrar que vi uma mulher sentada a ler uma coisa qualquer. E senti-me mais forte, não sei porquê, mas senti-me mais forte. Era uma tribo de vinte e três homens e ela sozinha e depois eu
Lá pedi o café, que não era nada mau para café manhoso como aquele e o homem que me serviu disse: There you are, love. Apeteceu-me responder: I’m not your bloody love ou Go to hell ou qualquer coisa assim, mas depois pensei: Já lhes está tão entranhado nas culturas e a intenção não era má, e também vou-me embora daqui a pouco, tenho avião quero lá saber 
E paguei o café, que não era nada mau 
e fiquei um bocado assim 
a olhar à minha volta 
e a ver a tribo toda a comer ovos e presunto 
e depois vi as horas e pensei que o táxi 
estava a chegar e eu tinha que sair 
E quando me ia levantar, a mulher sorriu 
Como quem me diz: That´s it 
e olhou assim à sua volta para 
o presunto 
e os ovos e os homens todos a comer 
e eu senti-me mais forte, não sei porquê, 
mas senti-me mais forte 
E pensei que afinal não interessa 
Londres ou nós, 
que em toda a parte 
as mesmas coisas são.

In Coisas de Partir, 1993




A escolha de Salomé (Maria Teresa Horta, "Pequena cantiga à mulher"))


A escolha de Salomé 

Salomé Andrade-Pohl, economista a trabalhar na área de gestão e 

marketing, veio para a Alemanha em 2006. 


Maria Teresa Horta 



Pequena cantiga à mulher



Onde uma tem

O cetim 
A outra tem a rudeza
Onde uma tem
A cantiga
A outra tem a firmeza

Tomba o cabelo
Nos ombros
O suor pela barriga
Onde uma tem
A riqueza
A outra tem
A fadiga

Tapa a nudez
Com as mãos
Procura o pão
Na gaveta 
Onde uma tem
O vestígio
Tem a outra
A pele seca 

Enquanto desliza
O fato
Pega a outra na enxada
Enquanto dorme
Na cama
A outra arranja-lhe
A casa

In Cronista não é Recado, 1967


A escolha de Luísa (Fiama Hasse Pais Brandão, "Do amor IV")


A escolha de Luisa 

Luisa Pais Lowe, diplomata, Cônsul Geral de Portugal em Hamburgo, 

veio para a Alemanha, pela terceira vez, em 2013. 


Fiama Hasse Pais Brandão 



Do amor IV 



Esta vista de mar, solitariamente, 

Dói-me. Apenas dois mares, 
dois sóis, duas luas, 
me dariam riso e bálsamo. 
A arte da Natureza pede 
o amor em dois olhares. 

In As Fábulas, 2002 

Perguntas do público

Adelina e Filipa

Alexandra e Salomé

Momentos de partilha e boa disposição

Convívio e prova de vinhos e petiscos portugueses no restaurante-galeria Nau


Fotografias gentilmente cedidas por Glyn Lowe in:

Tuesday, December 8, 2015

Sessão de leitura do escritor João Tordo no Centro de Língua Portuguesa - Camões da Universidade de Hamburgo

 
 
 
Realizou-se no passado dia 26 de novembro de 2015, no Centro de Língua Portuguesa - Camões da Universidade de Hamburgo, uma sessão de leitura com o escritor português João Tordo. A sessão contou com a presença da Senhora Cônsul-Geral de Portugal em Hamburgo, Drª Luísa Pais Lowe, e do Senhor Embaixador de Angola na Holanda, Engº Alberto Ribeiro, bem como de docentes e estudantes da Universidade de Hamburgo. A interpretação de conferência esteve a cargo da Drª Barbara Mesquita. João Tordo falou, de modo muito acessível e próximo do público, sobre os seus romances e o seu método de trabalho ficcional. No final, o escritor respondeu, em tom de animada conversa, a perguntas do público.
 
O evento inseriu-se no périplo do escritor pela Alemanha durante toda a semana, incluindo os leitorados do Camões Instituto da Cooperação e da Língua das Universidades de Hamburgo, Leipzig, Mainz/Germersheim, e a Embaixada de Portugal em Berlim em colaboração com a Escola Secundária de Kurt Schwitters de Berlim (Escola Oficial Europeia Alemão/Português, Turma do 13º ano).
 
Nascido em Lisboa em 1975, João Tordo faz parte da jovem geração de escritores portugueses. Venceu o prestigiado Prémio José Saramago em 2009 com o romance As Três Vidas, e foi finalista de vários outros importantes prémios portugueses e europeus. Está no prelo a tradução alemã (por Barbara Mesquita) do romance O Ano Sabático (2013), com o título Stockmans Melodie.
 
 

 
















 
Jessica Nieri (assistente do Centro), Sofia Rodrigues (Consulado), Ana Maria Delgado, João Tordo, Barbara Mesquita, Dr. Peter Koj (Sociedade Luso-Hanseática), SE Embaixador de Angola na Holanda


Fotos do evento da autoria de
Gia Júlio



 

Friday, November 6, 2015

O escritor João Tordo em périplo pela Alemanha em novembro

 
 

O escritor João Tordo estará em novembro em périplo pela Alemanha: dia 23 sessão de leitura na Universidade de Leipzig, dia 24 em Germersheim, dia 25 em Mainz, dia 26 em Hamburgo, e dia 27 em Berlim

 
 Foto © Vitorino Coragem



 
 Foto © Miguel Manso
 

Saturday, June 27, 2015

Sessão de apresentação do livro "Português, meu amor", pelo Dr. Peter Koj, seguida de workshop de tradução



Aspeto do público da sessão


Realizou-se no dia 24 de junho de 2015, no curso de Tradução, uma sessão de apresentação do livro do Dr. Peter Koj Português, meu amor, com o Autor. Peter Koj é membro fundador e pertence à presidência da 

PORTUGIESISCH-HANSEATISCHE GESELLSCHAFT e.V.
Associação Luso-Hanseática.

Estudou Romanística e Anglística na Universidade de Hamburgo e foi professor da Escola Alemã de Lisboa de 1976 a 1983.  Neste período de 7 anos "apaixonou-se" pela língua e cultura portuguesas, daí o subtítulo do livro, "Annäherungen an eine spröde Schöne", aludindo às dificuldades na aprendizagem da língua portuguesa. 

Dificuldades essas que são tratadas ao longo do livro com profundo conhecimento da língua e cultura portuguesas, em pequenos capítulos que foram publicados ao longo dos anos por Peter Koj na revista Portugal Post, sobre aspetos da gramática, do vocabulário, e da cultura portuguesa. Peter Koj reflete sobre estes aspetos usando sempre uma perspetiva intercultural, mostrando uma grande ternura pela língua portuguesa e sentido de humor. 

Um livro que se recomenda a todos/as aqueles/as que, tal como o autor, têm uma relação de afeto com esta língua. O Dr. Peter Koj recebeu em 1996 o Prémio da Fundação Casa da Cultura da Língua Portuguesa da Universidade do Porto. 

À apresentação do livro seguiu-se um animado workshop de tradução com os alunos do curso e participantes na sessão, sobre um capítulo do livro que tinha sido preparado em casa e traduzido por dois alunos do curso.












Peter Koj, Ana Maria Delgado, Júlio Matias


Fotos de Irina Reschetnikow