Showing posts with label Luís Cangueiro. Show all posts
Showing posts with label Luís Cangueiro. Show all posts

Monday, September 12, 2011





A Voz das Máquinas no Museu da Música Portuguesa - uma exposição para ver, ouvir e... aprender muito

II - A exposição


They all laughed at Christopher Columbus
When he said the world was round
They all laughed when Edison recorded sound

George e Ira Gershwin, They All Laughed

Até 30 de Outubro de 2011 pode ainda visitar a exposição A Voz das Máquinas no Museu da Música Portuguesa - Casa Verdades de Faria, no Estoril, e deliciar-se com um conjunto significativo da colecção particular de Luís Cangueiro, desta vez mostrando fonógrafos e gramofones, evocando a era dos primeiros inventores dos instrumentos de gravação de voz e som, Thomas Edison (1847-1931) e Émile Berliner (1851-1929).

A peça que podemos ver no cartaz da exposição, Idéal Mixte, França, 1904, é uma peça que faz a transição entre o fonógrafo e o gramofone, equipada com ambos os processos de leitura e com duas campânulas individualizadas, que permitem a audição do disco ou do cilindro. A Idéal Mixte está em destaque na Exposição e marca a passagem para a segunda sala, e a transição do fonógrafo para o gramofone. Trata-se de uma peça que se destaca não só pela originalidade, mas sobretudo pela sua raridade.





Ainda na primeira sala, a gravura que podemos ver em cima à direita data da Exposição Universal de Paris de 1889 e mostra, através da expressão dos rostos dos visitantes, a grande curiosidade e interesse despertado pela audição em simultâneo de um registo de fonógrafo de Edison.



Já na segunda sala, podemos ver o gramofone Berliner, EUA, 1900, associado à imagem do cão mais famoso da história do som, que conhecemos como "His Master's Voice", ou "A Voz do Dono", em Portugal. Na verdade, este cão tem não só nome, como também uma história comovente. Chamava-se Nipper e o dono, um inglês de ascendência francesa, costumava gravar a própria voz em discos de fonógrafo. Quando o dono de Nipper morreu, o irmão, o pintor Francis Barraud, herdou estes registos de voz e ficou encarregado de cuidar de Nipper. Sempre que Barraud tocava um cilindro com a voz do irmão, Nipper reconhecia a voz do dono e ficava na atitude atenta que conhecemos da imagem de marca. Barraud inspirou-se nessa atitude de Nipper e pintou um quadro a que deu o título His Master's Voice. Concluído o quadro, Barraud lembrou-se de procurar Edison para lho vender como símbolo da fidelidade dos seus fonógrafos, que permitiam ao cão reconhecer a voz do dono. Como Edison tivesse recusado, Barraud repetiu a proposta ao representante na Inglaterra desde 1899 de Émile Berliner, William Owen. Tendo a proposta sido aceite, Barraud modificou o quadro, pintando sobre o fonógrafo de Edison o gramofone de Berliner. Esta peça faz assim, de igual modo, a transição entre o fonógrafo e o gramofone, além de eternizar Nipper, um cão que, para além da celebrada virtude da fidelidade, tinha também muito bom ouvido.






Panorâmica da segunda sala


Pathé Concert Nº 3, França, 1913 (pormenor), peça de grande riqueza decorativa em zinco, de Legrand. Com som muito forte, destinava-se a salas de espectáculos e de baile.




Multiphone, França, 1914 (pormenor), exemplar muito raro de juke-box com moedeiro, um dos primeiros aparelhos a oferecer a escolha do disco.



Bell Horn Phonograph, EUA, 1920, máquina invulgar equipada com uma campânula acústica de metal em forma de sino, com motor, prato e respectivo braço. A peça adicional de bailarinos podia acompanhar vários ritmos musicais, executando passos de dança diferentes.



Secção de gramofones para crianças. A peça à direita chama-se Eureka, da Alemanha, 1903, e foi adoptada por uma marca belga para fazer publicidade aos chocolates Stollwerk, fabricando discos que podiam ser comidos após a audição.


a

World War II, Alemanha, 1939, esta grafonola de guerra destinava-se aos soldados da II Guerra Mundial. Aqui, o dispositivo adicional liga o som à imagem, produzindo uma imagem cinemática (neste caso um comboio), que podemos contemplar enquanto ouvimos o som (Bon voyage!).

Resta-me sublinhar que todas as peças da exposição estão magnificamente conservadas, podendo ser não só vistas, mas também ouvidas no recinto da exposição.

Com isto não quero de modo nenhum despedir-me dos leitores deste blogue, voltem sempre, apenas desejar-lhes boa viagem até ao Museu da Música Portuguesa, para ver ainda até 30 de Outubro de 2011 a exposição A Voz das Máquinas!


Fontes:

Catálogo da Exposição Voz das Máquinas - Museu da Música Portuguesa, Cascais, 2011

Fonógrafos e Gramofones, Colecção Particular de Luís Cangueiro. Edição Quinta Do Rei - Lazer e Cultura. Lda, 2008


Site do futuro Museu da Música Mecânica em Palmela:



Os meus agradecimentos muito especiais ao Dr. Luís Cangueiro pela autorização para fotografar o recinto da exposição, e à Drª Andreia Martins pela instrutiva visita guiada

Friday, August 5, 2011







A Voz das Máquinas no Museu da Música Portuguesa - uma exposição para ver, ouvir e... aprender muito

I - O espaço

They all laughed at Christopher Columbus
When he said the world was round
They all laughed when Edison recorded sound
  
George e Ira Gershwin, They All Laughed


       Há muito que deixei de me preocupar demasiado com os intervalos na minha ocupada vida em que me permito o luxo de seguir sem rumo fixo ou predeterminado, naquilo a que se costuma chamar deriva. É certo que se vai sem destino, sem um objectivo que à partida se conhece, mas sem esse alvo a atingir toda a nossa atenção se pode concentrar no que vamos encontrando pelo caminho, à medida que avançamos, e os nossos sentidos parecem regressar à sua potencialidade primeira, sem as exigências próprias do raciocínio lógico. E depois, talvez a deriva seja afinal mais do que isso: como escreve Rui Zink algures, "Uma verdadeira peregrinação parece quase sempre ao princípio (...) uma errância sem sentido". Não sei se este pequeno passeio de princípio de manhã estival se insere nessa categoria maior da viagem, mas no meu caso qualquer movimento tem sempre a ver com uma busca de sentido (nem sempre consciente). Até porque quem escreve estas linhas é curiosa como os gatos... e quem sabe se os gatos não procuram também um sentido, bem à maneira deles? Já que até sabem escolher os donos... sem ofensa para os donos de cães, que daqui a nada já vou também falar deles (i.e., dos cães!).



       Eis então o que descobri desta vez, passeando ao acaso no Estoril numa bela manhã de Verão: de repente encontrei-me diante da porta do Museu da Música Portuguesa e fiquei deslumbrada com o que me foi dado ver, um espaço arquitectónico maravilhoso, uma "casa portuguesa", segundo o traço de Raul Lino, que alberga preciosos acervos, portugueses também, conjuntos de instrumentos legados por Lopes-Graça e Giacometti. E ainda uma belíssima exposição temporária intitulada A Voz das Máquinas, mostra de fonógrafos e gramofones da colecção de Luís Cangueiro, única em Portugal, que nos faz viajar ao período que vai desde os finais do séc. XIX, quando começavam a fazer-se os primeiros registos de som, até aos anos 30 do séc. XX. Mas sobre isso poderá ler, ver e ouvir mais num próximo post deste blogue. Para já, fotografias do Museu de Música Portuguesa - Casa Verdades de Faria,  num dia cheio de sol e muita, muita luz.














(a continuar)