Sunday, December 11, 2011



Festival Kurt Weill 2012 em Dessau







Em 2011 o Festival Kurt Weill homenageou a cidade de Berlim no percurso do compositor alemão. Depois do sucesso de "Berlim iluminada" ("Berlin im Licht"), em 2012 será Paris o tema do Festival ("Homenagem a Paris"), recordando a passagem de Weill por essa cidade. O 20º Festival Kurt Weill na cidade natal do compositor, Dessau, perto de Berlim, cidade importante também pela permanência do movimento "Bauhaus", propõe para 2012 uma homenagem aos dois anos que Weill passou em Paris, de 1933 a 1935. Weill fugia da perseguição nazi mas, tal como os anos de Berlim, também estes dois anos em Paris foram especialmente produtivos. De Paris data, em especial, a peça Marie Galante, da qual recordamos uma canção na interpretação de Teresa Stratas (do belo documentário September Songs de Larry Weinstein, 1994, vd. em baixo o cartaz), e o bailado Die sieben Todsünden. A estadia em Paris teve importância e repercussão duradoura na produção de Kurt Weill, em especial pelo diálogo com outros intelectuais e compositores, como Darius Milhaud. O Festival apresenta, entre 24 de Fevereiro e 11 de Março de 2012, uma variedade de espectáculos na cidade alemã de Dessau - valerá a pena a visita.






Pode ver a versão de Marie Galante em filme aqui

Pode consultar o programa do Festival Kurt Weill aqui




Friday, November 25, 2011


Calendário de Advento em Leipzig




Costumamos vê-los durante o Advento na Alemanha em quantidades industriais, a atrair as atenções no sítio de maior destaque nas lojas e supermercados, profusamente coloridos, e com quadradinhos de janelas de 1 até 24: são os calendários de Advento, para abrir do dia 1 de Dezembro até ao dia de Natal. Pelo caminho, quem abre as janelas de cartão, seguindo o curso dos dias no calendário, vai recebendo chocolates. Oferecem-se, sobretudo às crianças, para preparar o Natal e o ambiente natalício. A cidade alemã de Lípsia (Leipzig) tem agora na Böttchergäßchen, em frente a um dos museus da cidade, o maior calendário de Advento do mundo ao ar livre, com 857 metros quadrados de superfície. Situa-se no centro de Lípsia, ocupado por estes dias até ao Natal por um enorme mercado de Natal (Weihnachtsmarkt) com inúmeras barraquinhas de "comes e bebes" e de produtos diversos, com carrosséis e uma roda gigante, juntando ao Natal elementos de feira popular.
Não posso deixar de pensar - quem dera que os quadradinhos de chocolate, mais do que um triste e cinzento consumismo, representassem autênticas janelas de luz até ao Natal, e para todos...

Thursday, September 29, 2011


Cartaz da exposição "Max Beckmann - Von Angesicht zu Angesicht",
"Max Beckmann - Face a face, percorrendo rostos",
numa das paredes laterais do Museu de Belas-Artes de Leipzig

Max Beckmann, "Quappi in Blau", "Quappi de azul", 1926
(Pinacoteca de Munique)



Max Beckmann em Leipzig


O Museu de Belas-Artes de Leizpig mostra uma exposição de Max Beckmann "Von Angesicht zu Angesicht", "Face a face - percorrendo rostos", de 17 de Setembro de 2011 a 22 de Janeiro de 2012. Este pintor expressionista nasceu em Leipzig em 1884 e veio a morrer em Nova Iorque em 1950. A exposição é a primeira, desde os anos 1960, dedicada à arte do retrato em Max Beckmann, e exibe 58 quadros a óleo e 160 estudos, desenhos e esboços, vindos de toda a Alemanha e do estrangeiro. A exposição como que constitui uma galeria dos familiares e pessoas amigas que fizeram parte da vida de Max Beckmann e que ele retratou. Através de desenhos e esboços, podemos ao mesmo tempo seguir o olhar do pintor desde a primeira impressão até à fixação no quadro.

Uma sala ainda alarga a exposição e é dedicada a diálogos contemporâneos com a obra de Max Beckmann, apresentando quadros de Marlene Dumas, nascida na Cidade do Cabo em 1953, e Alex Katz, nascido em Nova Iorque em 1927. Ambos os artistas, figuras importantes da pintura do nosso tempo, se referem a Max Beckmann como um dos principais modelos da sua obra.


Fonte: site do Museu de Belas-Artes de Leipzig, "Museum der bildenden Künste Leipzig", foto do exterior do Museu minha


Monday, September 12, 2011





A Voz das Máquinas no Museu da Música Portuguesa - uma exposição para ver, ouvir e... aprender muito

II - A exposição


They all laughed at Christopher Columbus
When he said the world was round
They all laughed when Edison recorded sound

George e Ira Gershwin, They All Laughed

Até 30 de Outubro de 2011 pode ainda visitar a exposição A Voz das Máquinas no Museu da Música Portuguesa - Casa Verdades de Faria, no Estoril, e deliciar-se com um conjunto significativo da colecção particular de Luís Cangueiro, desta vez mostrando fonógrafos e gramofones, evocando a era dos primeiros inventores dos instrumentos de gravação de voz e som, Thomas Edison (1847-1931) e Émile Berliner (1851-1929).

A peça que podemos ver no cartaz da exposição, Idéal Mixte, França, 1904, é uma peça que faz a transição entre o fonógrafo e o gramofone, equipada com ambos os processos de leitura e com duas campânulas individualizadas, que permitem a audição do disco ou do cilindro. A Idéal Mixte está em destaque na Exposição e marca a passagem para a segunda sala, e a transição do fonógrafo para o gramofone. Trata-se de uma peça que se destaca não só pela originalidade, mas sobretudo pela sua raridade.





Ainda na primeira sala, a gravura que podemos ver em cima à direita data da Exposição Universal de Paris de 1889 e mostra, através da expressão dos rostos dos visitantes, a grande curiosidade e interesse despertado pela audição em simultâneo de um registo de fonógrafo de Edison.



Já na segunda sala, podemos ver o gramofone Berliner, EUA, 1900, associado à imagem do cão mais famoso da história do som, que conhecemos como "His Master's Voice", ou "A Voz do Dono", em Portugal. Na verdade, este cão tem não só nome, como também uma história comovente. Chamava-se Nipper e o dono, um inglês de ascendência francesa, costumava gravar a própria voz em discos de fonógrafo. Quando o dono de Nipper morreu, o irmão, o pintor Francis Barraud, herdou estes registos de voz e ficou encarregado de cuidar de Nipper. Sempre que Barraud tocava um cilindro com a voz do irmão, Nipper reconhecia a voz do dono e ficava na atitude atenta que conhecemos da imagem de marca. Barraud inspirou-se nessa atitude de Nipper e pintou um quadro a que deu o título His Master's Voice. Concluído o quadro, Barraud lembrou-se de procurar Edison para lho vender como símbolo da fidelidade dos seus fonógrafos, que permitiam ao cão reconhecer a voz do dono. Como Edison tivesse recusado, Barraud repetiu a proposta ao representante na Inglaterra desde 1899 de Émile Berliner, William Owen. Tendo a proposta sido aceite, Barraud modificou o quadro, pintando sobre o fonógrafo de Edison o gramofone de Berliner. Esta peça faz assim, de igual modo, a transição entre o fonógrafo e o gramofone, além de eternizar Nipper, um cão que, para além da celebrada virtude da fidelidade, tinha também muito bom ouvido.






Panorâmica da segunda sala


Pathé Concert Nº 3, França, 1913 (pormenor), peça de grande riqueza decorativa em zinco, de Legrand. Com som muito forte, destinava-se a salas de espectáculos e de baile.




Multiphone, França, 1914 (pormenor), exemplar muito raro de juke-box com moedeiro, um dos primeiros aparelhos a oferecer a escolha do disco.



Bell Horn Phonograph, EUA, 1920, máquina invulgar equipada com uma campânula acústica de metal em forma de sino, com motor, prato e respectivo braço. A peça adicional de bailarinos podia acompanhar vários ritmos musicais, executando passos de dança diferentes.



Secção de gramofones para crianças. A peça à direita chama-se Eureka, da Alemanha, 1903, e foi adoptada por uma marca belga para fazer publicidade aos chocolates Stollwerk, fabricando discos que podiam ser comidos após a audição.


a

World War II, Alemanha, 1939, esta grafonola de guerra destinava-se aos soldados da II Guerra Mundial. Aqui, o dispositivo adicional liga o som à imagem, produzindo uma imagem cinemática (neste caso um comboio), que podemos contemplar enquanto ouvimos o som (Bon voyage!).

Resta-me sublinhar que todas as peças da exposição estão magnificamente conservadas, podendo ser não só vistas, mas também ouvidas no recinto da exposição.

Com isto não quero de modo nenhum despedir-me dos leitores deste blogue, voltem sempre, apenas desejar-lhes boa viagem até ao Museu da Música Portuguesa, para ver ainda até 30 de Outubro de 2011 a exposição A Voz das Máquinas!


Fontes:

Catálogo da Exposição Voz das Máquinas - Museu da Música Portuguesa, Cascais, 2011

Fonógrafos e Gramofones, Colecção Particular de Luís Cangueiro. Edição Quinta Do Rei - Lazer e Cultura. Lda, 2008


Site do futuro Museu da Música Mecânica em Palmela:



Os meus agradecimentos muito especiais ao Dr. Luís Cangueiro pela autorização para fotografar o recinto da exposição, e à Drª Andreia Martins pela instrutiva visita guiada

Friday, August 5, 2011







A Voz das Máquinas no Museu da Música Portuguesa - uma exposição para ver, ouvir e... aprender muito

I - O espaço

They all laughed at Christopher Columbus
When he said the world was round
They all laughed when Edison recorded sound
  
George e Ira Gershwin, They All Laughed


       Há muito que deixei de me preocupar demasiado com os intervalos na minha ocupada vida em que me permito o luxo de seguir sem rumo fixo ou predeterminado, naquilo a que se costuma chamar deriva. É certo que se vai sem destino, sem um objectivo que à partida se conhece, mas sem esse alvo a atingir toda a nossa atenção se pode concentrar no que vamos encontrando pelo caminho, à medida que avançamos, e os nossos sentidos parecem regressar à sua potencialidade primeira, sem as exigências próprias do raciocínio lógico. E depois, talvez a deriva seja afinal mais do que isso: como escreve Rui Zink algures, "Uma verdadeira peregrinação parece quase sempre ao princípio (...) uma errância sem sentido". Não sei se este pequeno passeio de princípio de manhã estival se insere nessa categoria maior da viagem, mas no meu caso qualquer movimento tem sempre a ver com uma busca de sentido (nem sempre consciente). Até porque quem escreve estas linhas é curiosa como os gatos... e quem sabe se os gatos não procuram também um sentido, bem à maneira deles? Já que até sabem escolher os donos... sem ofensa para os donos de cães, que daqui a nada já vou também falar deles (i.e., dos cães!).



       Eis então o que descobri desta vez, passeando ao acaso no Estoril numa bela manhã de Verão: de repente encontrei-me diante da porta do Museu da Música Portuguesa e fiquei deslumbrada com o que me foi dado ver, um espaço arquitectónico maravilhoso, uma "casa portuguesa", segundo o traço de Raul Lino, que alberga preciosos acervos, portugueses também, conjuntos de instrumentos legados por Lopes-Graça e Giacometti. E ainda uma belíssima exposição temporária intitulada A Voz das Máquinas, mostra de fonógrafos e gramofones da colecção de Luís Cangueiro, única em Portugal, que nos faz viajar ao período que vai desde os finais do séc. XIX, quando começavam a fazer-se os primeiros registos de som, até aos anos 30 do séc. XX. Mas sobre isso poderá ler, ver e ouvir mais num próximo post deste blogue. Para já, fotografias do Museu de Música Portuguesa - Casa Verdades de Faria,  num dia cheio de sol e muita, muita luz.














(a continuar)

Saturday, May 28, 2011

Ana Nobre de Gusmão na Universidade de Leipzig





A escritora portuguesa Ana Nobre de Gusmão esteve na Alemanha e fez sessões de leitura nas universidades de Mainz / Germersheim, Leipzig e Hamburgo. Em Leipzig, a sessão de leitura teve lugar a 26 de Maio de 2011, sob a égide do Instituto de Romanística e do Instituto Camões. A autora leu passos dos seus romances Delito sem corpo (Prémio Máxima Revelação de 2006) e Aves do paraíso. Judith Bettermann e Philipp Czapik leram os mesmos passos dos romances na versão alemã (Spiegel der Angst e Die Seherin, ambos publicados no Weidle Verlag).

Agradecemos esta leitura a Ana Nobre de Gusmão, bem como a interessante troca de impressões com os estudantes e professores presentes no público. De destacar a presença dos professores do Instituto de Romanística Doutora Christine Hundt, Doutora Cornelia Doell, Doutora Claudia Gatzemeier e Doutor René Ceballos.

No início da sessão, o grupo musical de estudantes de Português do Instituto de Romanística da Universidade de Leipzig, LusoNautas, deu as boas-vindas à escritora, interpretando "Milho verde" (canção popular portuguesa no arranjo de José Mário Branco).






Os LusoNautas foram: Ana Maria Delgado, Anne John, Hannah Rothmaier, Judith Bettermann (voz e guitarra), Margaretha Wolff, Philipp Czapik (voz e percussão), Sara Mendéz, Sara Rudolph e Tatjana Zyrko, representando os seguintes países: Alemanha, Bielorússia, Espanha, e Portugal.

Sunday, May 8, 2011



No coração de Sophia


O post anterior, sobre o 25 de Abril, e aquilo que concluí em breve texto sobre a necessidade de constantemente fazermos a sua actualização nas nossas vidas, recordou-me este passo que nos leva directamente ao que considero o "coração da obra" de Sophia de Mello Breyner Andresen:


"A poesia é oferecida a cada pessoa uma só vez e o efeito da negação é irreversível. O amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais. Mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias."

O passo insere-se num dos seus Contos Exemplares, escritos em 1962 tomando como exemplo Cervantes, o conto "Mónica". Caracterizando e caricaturando Mónica, personagem-tipo da época que se vivia então em Portugal, é este o contexto do passo acima citado, falando a narradora do sucesso social de Mónica:

"Por trás de tudo isto há um trabalho severo e sem tréguas e uma disciplina rigorosa e constante. Pode-se dizer que Mónica trabalha de sol a sol.


De facto, para conquistar todo o sucesso e todos os gloriosos bens que possui, Mónica teve que renunciar a três coisas: à poesia, ao amor e à santidade.

A poesia é oferecida a cada pessoa uma só vez e o efeito da negação é irreversível. O amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais. Mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias.


Isto obriga Mónica a uma disciplina severa. Como se diz no circo, 'qualquer distracção pode causar a morte do artista'. (...) Como um instrumento de precisão, ela mede o grau de utilidade de todas as situações e de todas as pessoas. E como um cavalo bem ensinado, ela salta sem tocar os obstáculos e limpa todos os percursos."

O passo oferece a chave para a compreensão do curto conto "Mónica", funcionando assim como mise-en-abîme do texto, conduzindo-nos simultaneamente ao essencial da obra da escritora e poeta, ao coração de Sophia...



Fotografia de Eduardo Gageiro